Novembro
14th 2008
Desumanidade

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É a coisa mais desumana que eu já vi… Já quase levei porrada por defender a idéia de que não existe mais índio, pois a grande maioria já vive e tem ambições como o “homem branco”. Tudo bem, eu não quero que acabem com a “cultura” deles, mas eles não têm o direito de matar suas crianças só por que são índios. Quem quiser saber mais: Hakani.org

Nem tem música depois de ver uma coisa assim. Por essas e outras sinto vergonha de ser humana… (apesar de não ser um vídeo real, a cena foi produzida para demonstrar como a coisa é feita de verdade, e sim, essa abominação ainda acontece com freqüencia nessa Pindorama)

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Novembro
12th 2008
Lulama

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Lula lambe Obama. O mundo também. Existe esperança, afinal. Mas não muita, não por aqui… Aqui a ignorância faz a esperança e a desesperança também. A ignorância que é mãe da pobreza, da corrupção, da intolerância. O brasileiro pobre não participa, não. Tem que comer pra sobreviver. O brasileiro da classe média está deprimido e impotente diante dos modelos de felicidade que foi criado para perseguir, para a máquina funcionar. O brasileiro rico não está deprimido. Ele vive o modelo de felicidade, pode brincar de filantropia e dormir sossegado. Claro, existem exceções. Mas é tão pouca a mobilização popular à favor da própria sociedade que dá muita raiva. É tão conformada a maioria, é tão pacata… Tudo bem se está tudo errado, não estresse! Brasileiro não estressa… É um povo conformado, é um povo que ri quando deveria xingar, xingar é errado por que se expressar é errado, expressar descontentamento é errado, tem que seguir o padrão do pacato, pedir desculpas por estar sendo lesado. Tem que estar feliz, mesmo humilhado como cidadão. Tem que ter esperança, mesmo diante de toda injustiça… Tanta injustiça que não é mais possível imaginar uma redenção, é muito difícil até pensar numa alternativa. Virtudes… Onde vocês se esconderam?

Música de esperança(?): Redemption Song - Bob Marley

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Novembro
4th 2008
Soninha 2012!

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Olha, que legal, ontem eu e o Euclides, um camarada da facu, fomos entrevistar a Soninha pra um trabalho cujo tema são a relevância da maioria dos projetos de lei apresentados pelos vereadores. Quando o trabalho estiver puronto, eu coloco o link… :P Mas valeu muito a pena ter pensado na Soninha pra fazer uma coisa autêntica, de qualidade. Ela não é hipócrita, fala a real mesmo, sem ensaio… Ela fala com tanta propriedade de São Paulo e dos fatos que impedem a cidade de ser melhor e mais justa que dá até medo. O fato de que a imprensa a procure só pra falar sobre o que pode render ibope, distorcendo idéias e não dando espaço pro que realmente é interessante mostrar na grande mídia foi abordado. Aliás, uma coisa muito interessante é o termo ampla divulgação na mídia. O que isso significa? Um exemplo cruel (créu): o caso Eloá. Aquilo foi um GRANDE exemplo de AMPLA divulgação na mídia. Vocês sabiam que, na lei, um Projeto de Lei que é submetido à votação pelos vereadores tem de, obrigatoriamente, ser amplamente divulgado pela mídia? Isso não acontece por que a mídia não procura os vereadores que disputam a apresentação de seus projetos de maneira trapaceira, valorizando mais a autoria do projeto do que sua relevância para a sociedade. A mídia não divulga amplamente os projetos, nem ao menos os cita, o povo não sabe de nada. Mas, enfim, quando o trabalho estiver pronto eu coloco um link aqui, só sei que a Soninha me conquistou e ao Euclides, a gente saiu de lá super feliz por tê-la conhecido de perto e ouvido de sua boca que vai concorrer de novo à prefeitura em 2012 (eu já comecei a fazer campanha, tá vendo?). Não parece que ela quer o poder só pelo poder, mas por saber que é com o poder que ela vai poder combater a maneira sem vergonha de se fazer política aqui em Sao Paulo, quem sabe no Brasil, um dia.. O site da Soninha, muuuuito informativo sobre suas ações, compromissos e ideologia, vale a pena ser acessado, vou linkar e acompanhar. É bom saber que nem todos os políticos são uns filhos da puta, pra variar…

Música pra hoje: Oh me - Nirvana

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Novembro
2nd 2008
Altas Horas X Faustão

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Nossa, demorou pro Faustão sair do ar, né? Sei lá, o cara já tem décadas ocupando a TV aberta nos domingos. Tenho muita pena de quem só pode ter TV aberta, principalmente nos finais de semana, quando há mais tempo pra assistir é quando as emissoras cagam no pau mesmo. A TV está um lixo, mas não é por falta de propostas dos que trabalham na área. É por falta de bom senso do povão mesmo, que prefere ver a mesma coisa em todos os canais, ou seja, o jabá. Programas como CQC, MTV Debate, Prelúdio, mostram que há vida inteligente dentro da caixa de deixar burro demais. Claro que o telespectador pode trocar de canal e escolher o melhor programa, mas é fato que programas de auditório nas tardes de domingo são todos iguais, nem adianta pegar o controle.

Aí nessa madrugada estava assistindo ao Altas Horas e imaginei o que aconteceria com o mundo se ele substituísse o Faustão nas tardes de domingo (ô loco, nada pessoal contra o fofo). Será que os anunciantes perderiam tanto público assim? Será que a Marabraz e as Casas Bahia faturariam menos se suas malditas propagandas fossem durante o intervalo de um programa do Serginho Groisman? Será que é por que ele é magrinho? O fato é que daria mais qualidade ao programa de auditório, pois ele permite que seus convidados realmente respondam as perguntas e o auditório participe mais do que apenas batendo palmas, como um bando de retardados… Sem contar o conteúdo. Afff… Eu não agüento mais Faustão, ainda bem que não tenho só essa alternativa.

Música: É domingo - Grinders

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Outubro
30th 2008
Revolta letiva

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Vá se foder, professor!
A cultura está fodida mesmo
Cada palavra acrescenta vazio
Todo dia a mesma coisa
Tanta coisa sem sentido
Sem vontade, desistência
Cultura virou ofensa
Nada importa pra quem é pouco
Quem sabe é estranho
Quem ignora é feliz
Qual a droga pro nada?
Pra entorpecer a chegada
A partida, a estrada
Irrita todo dia sentir
Que quem sente não existe
É ficção, história, já era
Ainda estou aqui, atemporal
Por que resolvi nascer agora?
Do que vejo pelo mundo afora
Nada me interessa muito…

Escrevi essa dia 11/06/08, achei em um dos milhares de cadernos… Lembro que ficava super aborrecida na aula de Cultura Brasileira Contemporânea, o mais atual que o professor conseguia chegar era a ditadura militar, ele é um super professor bem velhinho que viveu épocas menos hediondas… Mas eu agradecia muito por isso pois, se ele entrasse no contemporâneo de fato, talvez acontecesse uma onda de suicídios pela sala… Ou não, o que talvez fosse pior ainda.

Música da cultura brasileira contemporânea (eu não recomendo mais que 15 segundos, sob risco de ter lesões cerebrais permanentes que causam retardamento mental): Dança do Créu - Furacão Tsunami *** Imagino as futuras gerações discutindo esse primor de música… e o pior, meu filho achar que por eu ser contemporânea dessa…coisa, eu goste dela.

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Outubro
25th 2008
Queixadinha

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Ah, eu também resolvi dar uma queixadinha por que sou uma mulher latino-americana que também sabe se lamentar… Duas coisas que me irritam ultimamente: o jornalismo sensacionalista e as “dinâmicas” de grupo. O primeiro me deprime, a liberdade de imprensa está indo longe demais, deixou de ser liberdade para ser libertinagem. Informar a sociedade significa dar notícias que sejam relevantes para a maioria, que sejam realmente de interesse social, no meu ponto de vista que parece o de uma autista cega… O caso Isabela Nardoni e mais recentemente o caso Eloá são evidências claras de como desviar a atenção pública para a tragédia particular, fazendo-os nem prestar atenção em notícias sobre política e economia, você viu mais alguma notícia sobre a guerra das polícias em São Paulo? Claro que não… É muito mais fácil dominar e subjugar uma sociedade massificada e estúpida. O dinheiro que pagou os carros, bombas, armas e fardas que usaram no “protesto” saiu do nosso bolso, mas era mais importante saber do drama doméstico de uma menina que poderia ter saído viva se a imprensa não tivesse se metido… Quando eu pensava que o jornalismo que cobre a vida de celebridades instantâneas fosse o fundo do poço, ele consegue se superar e fazer pior. Numa boa, valeria censura de horário pra violência no telejornal, não sei se meu filho ficou traumatizado ao ver uma menina que tentou salvar uma amiga aparecer com um tiro na cara, ao vivo, numa tarde de primavera…

As malditas dinâmicas. Sou do tipo que puxa papo, uma mala. E quando participo de alguma entrevista de emprego, acabo ficando amiguinha dos concorrentes, afinal estamos todos ali no mesmo barco furado. Estamos ali para mentir, basicamente. Não entendo a utilidade de se contratar uma empresa de RH externa. Se o cara, o chefe, precisa de funcionários, ele sabe que tipo precisa. Ok, o próximo passo seria listar quais requisitos os candidatos devem preencher para concorrer à vaga. Uma secretária é capaz de separar os currículos que correspondem aos requisitos. No final, grande parte da entrevista vai por água abaixo, pois o chefe vai entrevistar os que mais se aproximaram das exigências que podem ser comprovadas (currículo) e vai escolher aquele que ele gostar mais. Isso mesmo: gostar. O sujeito pode ser o mais qualificado que existe, se o contratante não gostar da cara dele, já era. Por que, então, torturar o candidato com tantas etapas? E obrigá-lo a mentir, pois ninguém vai falar a real quando a pergunta é “Quais são seus defeitos?” e a resposta certa vale um salário de quatro dígitos… Quem teria coragem de admitir nessa situação que seu pior defeito é ser muuuuuito preguiçoso? Ou ser rabugento? Ninguém responderia “Quais são suas melhores qualidades?” algo do tipo “Sou gostosa e isso vai facilitar muito as coisas na sua empresa”? Ou quase ninguém, acho… Os defeitos e qualidades reais ficam implícitas ou ocultas, não interessam na sua vida profissional, não nesse mundo máquina, onde tudo é produto, desde tragédia familiar até mão de obra…

Toca Raul! Eu também vou reclamar - Raul Seixas

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Outubro
14th 2008
Amor não machuca…

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Fisicamente, quero dizer. Não entendo mulheres que apanham e continuam apanhando, não largam quem bate, não denunciam, não reagem… Não sei se sinto pena ou raiva. Não acho que mulher alguma seja digna de pena. Talvez algumas… Parece doença, sei lá. Não acredito que o amor por alguém possa se maior que o amor próprio,  dignidade. Nelson Rodrigues dizia que mulher gosta, acho que provocamos e testamos a força masculina, mas a coisa tem limites sadios. Uns tapas na bunda numa hora de… é, foda, é uma coisa, outra coisa é a mulher parar no hospital com suspeita de traumatismo craniano e fratura na costela. Não sei se eu deixaria vivo um homem que me fizesse uma coisa dessas… Testar a força do homem deve ser uma maneira, talvez inconsciente, de ver o quanto ele pode proteger a mulher e uma possível família. Mulheres, geralmente, não são “fáceis”. São bocudas, provocadoras, manipuladoras, chantagistas emocionais, dramáticas, espertas, exageradas, teimosas, desconfiadas, inconstantes. Mas nada justifica usar violência para se afirmar ou se sobrepor. É uma puta covardia, aliás.

Claro que homens são mais fortes, pelo menos fisicamente, pelo menos enquanto não tivermos superpoderes. Tenho o maior nojo desses caras… E medo, também. Não só por mim, mas pelo futuro. Um cara que bate numa mulher está errado, uma mulher que apanha é uma vítima, se ela se sujeita é problema dela. Mas, e os filhos? Algumas mulheres dizem que agüentam pelos filhos, eu não acredito muito. O exemplo de violência no desenvolvimento dos filhos talvez seja muito pior que uma separação, uma ausência. O filho pode crescer e achar que tudo bem bater em mulher, e a filha pode crescer e achar que tudo bem apanhar. Até que aconteça uma tragédia, tudo bem. Isso é um ciclo triste, de falta de auto-estima e tristeza. Histórias tristes e cheias de traumas que já ouvi e vi me fazem duvidar da nossa evolução, claro que todos temos momentos de raiva e explodimos ocasionalmente, mas a violência doméstica, que acontece em maior ou menor escala em todos os lugares, me faz achar que falhamos em conviver, compartilhar a vida. Um dia, não lembro quem, mas alguém que me disse que animais brigam por que não sabem conversar…

Musica pra elas: Respect - Aretha Franklin

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Setembro
24th 2008
Onde isso vai parar?

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Tanta violência na TV contra crianças deixa muita, mas muita revolta mesmo. Pedofilia, agressão, assassinato. Que vontade de sair matando esse tipo de criminoso… Claro que qualquer violência é revoltante, mas contra anjos inocentes e totalmente indefesos é MUITO mais grave. Fico besta, me pergunto com anda a cabecinha dos pequenos que assistem ao show de horror dos noticiarios, como olham pros adultos que deveriam zelar pelas felicidade em suas vidinhas.

É todo dia. A cada dia uma nova barbárie, não há punição decente para esses criminosos, a justiça no Brasil é ridícula. Morosidade na investigação, demora no processo judicial, assistência social ineficiente. Mais a pobreza… Essa é fator constante. Com exceção do caso da Isabela Nardoni, que teve tanta repercursão exatamente por ser de classe média, todos os que surgem diariamente são retratos da miséria humana. Mães, que o são por não terem condições de pagar um aborto clandestino em clínica bacana, abandonam filhos nos lugares mais desgraçados que se pode imaginar, dá vontade de ver a sujeita castrada pra nunca mais ter chance de errar assim com a vida de outro filho, sempre imagino por qual motivo essas fulanas não deixaram esses bebês em lugares seguros, pelo menos. Pais que estupraram filhos respondendo aos processos em liberdade, crianças que crescem fumando crack e sendo espancadas, babás que judiam. É tanta coisa que nem sentimos muito.

A classe média, vítima da culpa mas não da fraternidade cristã, sente-se mal para protestar e reclamar. Poxa, não podemos reclamar da nossa comida enquanto tantos são os que passam fome, não podemos reclamar do caos nos hospitais quando temos plano de saúde, se nossos filhos estudam em escola particular fica mal reclamar da pública. E por aí vai, há até quem diga que só paga imposto de renda quem ganha o suficiente pra isso. Verdade, segundo as leis imorais do nosso país. Se ganhar 1.500 reais por mês já leva mordida do leão, já é classe média. O salário mínimo, ridículo no nosso país, talvez não aumente por que quem ganha cinco deles já se acha rico demais pra reclamar. Essa omissão garante o ciclo de pobreza, que passa de pai pra filho, assim como o ranço burguês dos que tiveram oportunidades mas acreditam que conquistaram tudo sozinhos.

A sociedade discute ambientalismo enquanto tem criança se prostituindo em Brasília por 3 reais. Claro que um assunto não desmerece outro, mas vamos combinar que essa criança vai crescer sem ter a menor oportunidade de se maravilhar com a reciclagem mágica, muito menos saber do que se trata educação ambiental. As pessoas estão esquecendo das pessoas mais importantes: as que estão crescendo. O futuro sempre é delas, mas somos nós, os adultos, que seremos os responsáveis pelos monstrinhos que estamos criando. Se omitir em relação ao descaso do governo com essa pobreza que gera tanta tragédia é irresponsabilidade. O assistencialismo das bolsas-esmolas poderiam ter fim se a classe média se manifestasse em favor da dignidade do salário mínimo. As oportunidades seriam melhores se as famílias não tivessem só sexo e TV como formas de entretenimento. Se a desigualdade não diminuir, continuaremos a assistir de cima ao freak show dos flagelados na TV, e teremos parte da responsabilidade quando essa violência nos atingir.

Som do protesto: Perfeição - Legião Urbana

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Setembro
1st 2008
Perigosa pra quem?

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Só se for pra minha própria integridade psicológica…

Eu não queria parecer “a” perigosa, uma fêmea perigosa, uma rival, oponente perigosa… Mente perigosa, moça presunçosa… No fundo, queria ser perigosa pra quem me incomoda e me faz chorar quase todo dia: a intolerância aliada à indiferença (des)humana(s). QUase todo dia eu passo por uma escada onde dorme um menino que não tem nem 10 anos de idade. Ele dorme só ali, ninguém que pareça ser sua “família”, nenhum cobertor, sempre sujo, sempre invisível. Todos os dias, sempre invisível… É uma criança que não é muito diferente de outras tantas que perderam suas famílias para o vício, a violência, a doença ou as várias formas nojentas de guerra que ainda comprovam a incapacidade humana para a paz. São orfãos da vida, cujas origens só prestam como referência de desespero, só servem pra enriquecer pesadelos. Essas crianças fazem parte dos meus sonhos mais tristes, aqueles que me fazem chorar e gritar sem conseguir acordar e escapar. E não consigo deixar de olhar, virar o rosto, fingir que não é comigo. Algo de fascínio mórbido, mau gosto, síndrome de super-heroína frustrada, complexo de madre Tereza… Não sei o que pode ser, só sei que não consigo evitar.

Desde pequena me sinto desconfortável por ter mais e por não saber dividir o suficiente. Claro que mi madre, canceriana que só, sempre teve coração muito mole, sempre incentivou que doássemos o que não nos fizesse falta, estimulou nosso espírito altruísta com chantagens emocionais que sempre evocavam imagens das pobres crianças famintas da África ou do sertão árido tupiniquim, deu exemplos de generosidade e conduta benevolente e, assim, criou dois filhos que queriam carregar o mundo no colo. Meu irmão, apesar de ser um oposto, também tem latente essa vontade de acabar com a injustiça e a desigualdade de oportunidade, é o tipo de cara que é capaz de dar as próprias calças e andar pelado pra ajudar quem lhe procura. Mas nem sei se algum dia ele sentiu vergonha por ser caucasiano num país de miscigenados, por ter mais brinquedos que o coleguinha, por ter dinheiro pra pagar lanche na cantina enquanto a maioria comia da merenda gratuita.

Queria ser perigosa para os avarentos, os insensíveis e injustos o mundo, os emergentes que sobem pra pisar na cabeça de quem os serve; morro de vergonha alheia toda vez que vejo um “cliente” maltratar e/ou humilhar um funcionário por algum problema que o pobre empregado não poderia  resolver, como procedimentos que são regras estabelecidas por uma matriz invisível e distante, coordenada por algum “deus” que também é invisível e distante.  Queria ser mesmo uma ameaça aos que fomentam a desigualdade, mãe da injustiça. Aos que têm “coragem” de aumentar a margem de lucro sem pagar melhor seus funcionários, aos que têm “coragem” de bater em alguém indefeso, aos que não doam os bens que estragam em seus depósitos e porões, aos que não contribuem com a qualidade da educação para todos, aos que viraram o rosto pro menino que dorme todo dia nas escadas do Metrô Luz… Talvez eu seja uma hipócrita por não levar aquele menino pra minha casa, algumas vezes sinto que estaria muito mais realizada como pessoa se trabalhasse apenas pelos outros, em vez de pelos meus e para os outros…

Músika: Stand By Me - John Lennon

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Julho
28th 2008
Juventude careta?

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Realmente vivemos numa geração de juventude careta. E por que não seria? Nada é mais careta que querer enfiar um maldito rótulo de esquerda ou direita em toda maldita geração. O que determina a liberalidade das opiniões são os assuntos velhos, assuntos que talvez nem interessem. Pedir para um jovem escolher o que é mais importante em sua vida, dando opções como família, amigos, dinheiro, beleza é, no mínimo, besteira. Declarar que essa juventude tem um cabedal pobre para discernir sobre esses assuntos é chover bem no molhado, mesmo. Perguntas sobre maioridade penal para um menor de idade deveriam ser feitas apenas de maneira retórica, para não ficar ridículo. Claro que a juventude é careta, claro que a nossa imprensa é esquerdista e não representa a sociedade que a consome, claro que o idealismo juvenil deixou de existir. Não há por que ser diferente… Os valores nunca mudaram, na verdade. A sociedade não evoluiu no que diz respeito ao comportamento, apenas no que se refere à tecnologia, e mesmo com tamanha capacidade de informação e de comunicação, não há estímulo a criatividade, ao questionamento. Só massa, muita massa e muita homogeneização de tudo e todos. Os desejos da juventude sempre são ignorados. Claro que a juventude quer dinheiro e bens, mas também quer sonhar, quer sentir-se representada. Podem ser contra a legalização das drogas ou do aborto, mas são a favor da liberdade de escolha, com certeza. Não conheço jovens que gostem de ter suas vidas decididas por outros. No momento, o que representa a juventude na grande mídia é a MTV, 99% besteirol e 1% de tentativa de aparentar consciência. Não poderia ser de outra maneira, pois é uma geração criada nos valores do entretenimento, o “veículo de informação” deixou de informar para influenciar, todos eles, principalmente os que não admitem. Essa é uma geração que não se informa por osmose, apenas ligando o rádio ou a TV. Quando se interessa por algo, quando tem qualquer dúvida, não pergunta para os pais ou amigos, simplesmente pesquisa na web. E o crescimento progressivo dos dados na internet é prova de que a juventude tem interesse, sim, mas não pelo que interessa aos velhos. Aliás, velhos não deveriam escrever sobre jovens. Há sempre um ranço de nostalgia, inveja e prepotência na avaliação que os velhos fazem dos jovens. Os velhos deveriam, sim, analisar a evolução da sociedade, já que têm experiência de vida pra isso. Mas não deveriam tentar explicar o que se passa na cabeça de gente que viveu de outra maneira, não deveriam tentar massificar mais essa. Esse tipo de padronização é o começo de toda a idiotice que as gerações futuras sofrem, desde já, e como sempre…

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