Só se for pra minha própria integridade psicológica…
Eu não queria parecer “a” perigosa, uma fêmea perigosa, uma rival, oponente perigosa… Mente perigosa, moça presunçosa… No fundo, queria ser perigosa pra quem me incomoda e me faz chorar quase todo dia: a intolerância aliada à indiferença (des)humana(s). QUase todo dia eu passo por uma escada onde dorme um menino que não tem nem 10 anos de idade. Ele dorme só ali, ninguém que pareça ser sua “família”, nenhum cobertor, sempre sujo, sempre invisível. Todos os dias, sempre invisível… É uma criança que não é muito diferente de outras tantas que perderam suas famílias para o vício, a violência, a doença ou as várias formas nojentas de guerra que ainda comprovam a incapacidade humana para a paz. São orfãos da vida, cujas origens só prestam como referência de desespero, só servem pra enriquecer pesadelos. Essas crianças fazem parte dos meus sonhos mais tristes, aqueles que me fazem chorar e gritar sem conseguir acordar e escapar. E não consigo deixar de olhar, virar o rosto, fingir que não é comigo. Algo de fascínio mórbido, mau gosto, síndrome de super-heroína frustrada, complexo de madre Tereza… Não sei o que pode ser, só sei que não consigo evitar.
Desde pequena me sinto desconfortável por ter mais e por não saber dividir o suficiente. Claro que mi madre, canceriana que só, sempre teve coração muito mole, sempre incentivou que doássemos o que não nos fizesse falta, estimulou nosso espírito altruísta com chantagens emocionais que sempre evocavam imagens das pobres crianças famintas da África ou do sertão árido tupiniquim, deu exemplos de generosidade e conduta benevolente e, assim, criou dois filhos que queriam carregar o mundo no colo. Meu irmão, apesar de ser um oposto, também tem latente essa vontade de acabar com a injustiça e a desigualdade de oportunidade, é o tipo de cara que é capaz de dar as próprias calças e andar pelado pra ajudar quem lhe procura. Mas nem sei se algum dia ele sentiu vergonha por ser caucasiano num país de miscigenados, por ter mais brinquedos que o coleguinha, por ter dinheiro pra pagar lanche na cantina enquanto a maioria comia da merenda gratuita.
Queria ser perigosa para os avarentos, os insensíveis e injustos o mundo, os emergentes que sobem pra pisar na cabeça de quem os serve; morro de vergonha alheia toda vez que vejo um “cliente” maltratar e/ou humilhar um funcionário por algum problema que o pobre empregado não poderia resolver, como procedimentos que são regras estabelecidas por uma matriz invisível e distante, coordenada por algum “deus” que também é invisível e distante. Queria ser mesmo uma ameaça aos que fomentam a desigualdade, mãe da injustiça. Aos que têm “coragem” de aumentar a margem de lucro sem pagar melhor seus funcionários, aos que têm “coragem” de bater em alguém indefeso, aos que não doam os bens que estragam em seus depósitos e porões, aos que não contribuem com a qualidade da educação para todos, aos que viraram o rosto pro menino que dorme todo dia nas escadas do Metrô Luz… Talvez eu seja uma hipócrita por não levar aquele menino pra minha casa, algumas vezes sinto que estaria muito mais realizada como pessoa se trabalhasse apenas pelos outros, em vez de pelos meus e para os outros…
Músika: Stand By Me - John Lennon