Outubro
22nd 2008
Companheiro de barriga - “Pequia”

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Espero que ele não fique super bravinho, adora fazer um tipo reservado e ranzinza o meu irmão. Putz, meu único irmão, meu melhor amigo. Por ele é que vou fazer um(a) irmãozinho(a) pro meu pequeno. Por ele é que sou o que sou hoje e sem ele minha história não teria significado nada. Parece exagero? Tenho uma teoria… Ok. Não quero falar a teoria do que penso sobre ter irmãos ou ser filho único nesse post. Quero falar dele, do Pequia. Claro, esse não é seu nome. Na verdade, era pra ser Wellington, mas diz a lenda que o “cara do cartório” nao sabia escrever isso, então nosso progenitor sacou a cédula de identidade e disse: ” - Então copia esse nome aí, seu analfabeto!”. Não duvido muito da lenda porque nosso pai não era bem um exemplo de elegância e paciência. E aí ficou o mesmo nome do meu pai, um nome que parece um espirro. Eu não sabia falar seu nome quando nasceu. E quando tentava pegá-lo do berço pra brincar, como se ele fosse um boneco, mi madre sempre dizia que eu não podia, que ele era pequeno. Eu também não sabia falar pequeno, repetia: ” - Ele é pequia, mamái?”. Foi seu primeiro apelido e durou a infância toda - PEQUIA! Ele não se incomodou com o apelido nos primeiros 12 anos de sua vida e sei que sempre, no fundo de sua mente, seu apelido secreto é Pequia; será esse nome que ele vai usar se um dia precisar esconder sua identidade enquanto brinca de super herói, e fui eu que batizei.

Meu irmão, na verdade, não é o tipo que brinca de herói valentão, mas de “Rei da Razão”. Ele sempre foi muito mais pacífico, mais “bonzinho” que eu. Deixávamos la madre louca! Claro, a culpa quase sempre era minha, que o levava junto. Muito ciúme, ele nasceu e eu ainda mamava no peito, só um ano e dois meses de diferença. Já fiquei ressentida aí. Então, quando ele tinha só três meses de vida, um procedimento mal feito no hospital resultou em infecção, pneumonia e o escambau. Ele, que chegou ao hospital aos três meses e pesando seis quilos, saiu aos seis meses pesando três, depois de extrema-unção e até atestado de óbito. Imagina que mi madre ficou muito mals, não saía de perto dele no hospital. E eu, que tinha uma saúde de ferro, ficava meio em segundo plano. Durante toda a infância ele teve a saúde mais frágil, mas isso não me impediu de judiar bastante, como uma boa irmã mais velha e ciumenta. A gente brigava por tudo e qualquer coisa. Se hoje eu sei brigar pelo que quero, aprendi com ele.

Tinha um terceiro irmão, que não era filho da nossa mãe, mas da irmã dela. Nosso primo Guto, que é apenas vinte um dias mais velho que eu, mas sobre ele vou escrever em outro post. Ele morou conosco durante os anos dourados da infância, era nosso parceiro de fugas e campeonatos de arroto. Meu irmão sempre tentava imitá-lo, mas aos oito anos ele foi morar com a mãe e aí éramos só nós, de novo. Brigas e brigas, altas cicatrizes nele, o menino parecia podre mesmo. Uma vez, depois de ter levado uma super mordida canibal no ombro, ele me deu um soco no nariz daqueles que tiram sangue, tinha catorze anos e já estava mais alto. Nunca mais eu poderia ser mais forte então paramos de brigar e começamos a discutir. Ele, na busca da propria personalidade, foi se distanciando, e eu também. Dois adolescentes que queriam ser diferentes, ter outros referenciais. Eu fui a rebelde, ele foi o ajuizado. Seu temperamento me fazia defendê-lo dos valentões na infância, da adolescência até hoje é ele quem me defende. E ele é grande, viu?

Sempre foi um político nato, o tipo que conhece até os cachorros de rua pelo nome. Dirige melhor que eu, me salva quando eu mato o computador, entende mais dos mecanismos ocultos da economia nacional, é mais cabeçudo, mas sempre perde pra TV quando está passando qualquer jogo de futebol, não importa se for campeonato da série J do Ziniguistão, ele assiste. Comia até pedra quando era pequeno, hoje tem várias frescuras pra comer. Urbano no nível máximo, o melhor que ele já pescou foi a própria orelha aos sete anos (e eu que tirei o anzol, hahaha). Caramba, meu irmão é um oposto, mas é totalmente complementar. Sem ele eu seria muito pior, com certeza… E ontem sua obra-prima completou 5 anos de vida, meu único sobrinho, o Thomas. Parabéns, Buliga! Eu queria ter tido um pai tão legal quanto o seu!

Uma música que ele ama: Nothing else matters - Metallica

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Outubro
2nd 2008
A tia Dirce…

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Começando a temporada de caça às bruxas, ou melhor, de histórias quase reais da minha ilustre família, decidi começar com a pessoa mais… bom, não sei uma só palavra pra definí-la. Por isso resolvi fazer um texto sobre a tia Dirce. Na verdade, ela é minha tia-avó, irmã da minha avó materna. Lembro de quando as duas brigavam em espanhol, minha avó boca suja, una malagueña muy orgullosa y valiente, mandava a tia pra tudo que era canto, e ela, fanática religiosa como sempre, ficava resmungando “Jesús! Cubre con tu sangre!” Eu, meu irmão e meu primo Guto, três pestes entre 5 e 7 anos, ficávamos arremedando e rindo que nem idiotas. Ela ficava p da vida e corria atrás da gente, era a glória!

Pensa numa bruja vieja. Sim, a tia DIrce sempre teve essa cara e, um dia, sei que a genética falará mais alto e não haverá pinça que dará conta dos pêlos das minhas verrugas. Mas enquanto ainda sou só uma feiticeira, posso fazer veneninho com a cara da tia. Desde que eu nasci ela é velha, muito mesmo. Mas um grande mistério da humanidade é o fato de, aos 78 anos de idade, ela não ter nenhum cabelo branco e nunca ter tingido os mesmos (sua religião não permite quase nada, só falar mal dos outros). Aliás, o cabelo dela é uma entidade. Ele não cresce, e ela fica louca com isso. Seu figurino é o de uma bruxa mesmo, mas quando ela inventa de pregar pedaços de babosa com grampos pela cabeça, fica um primor de alegoria. Ela também adora fazer coques com cabelos estranhos, e não fica nada discreto…

Diz a lenda que quando ela nasceu, tinha um “chifre” na testa e que seu pai queria jogá-la no rio por achar que se tratava de coisa do “demo”. Sua mãe não permitiu, claro, leoa como sua linhagem, e criou a penúltima filha, que era realmente diferente dos outros. A lenda também diz que até uns 9 anos de idade ela não falava nada, só cantarolava coisas como “lalala”. O lendário chifre não existe mais, nunca tive coragem de perguntar pra ela se é verdade, e também evito a fadiga. Ela parece ser meio surda, mas também parece que escuta muito quando se trata de alguma fofoca. E também é meio lelé quando quer. Um exemplo: ela odeia que deixem o portão de casa aberto, um dia comentou: “Portão que deixa aberto é o da padaria, do mercado. Mas se você vai no mercado e leva uma bolsa grande, tem que deixar no guarda volume!” Dizem que o pensamento dela sempre foi assim, que ela sempre foi assim.

E apesar de muito estranha, ela trabalhou durante quase 20 anos e se aposentou por invalidez (alguém percebeu que ela não batia muito bem da cuca depois desse tempinho), ficou casada por quase dez anos e não teve filhos, nunca teve outro homem na vida, tem habilitação para dirigir, vai pra igreja super protestante de extrema direita onde as pessoas se vestem como se fossem pr’um casamento todos os dias, cozinha muito mal, mas vive inventando maneiras de aproveitar alimentos e fazer coisas horríveis pra toda família experimentar (temos amor pela vida e fingimos que vamos guardar pra comer depois, pois acabamos de lanchar, sempre), não assiste TV ou ouve rádio, não lê jornais, só faz crochê. Higiene também não é lá o forte dela, nem paciência com crianças. Parece que os pequenos percebem isso e sentem um imenso prazer sádico em quebrar suas plantas e mostrar-lhe a língua.

Apesar de muito solitária, ela não perturba nenhum mamífero com sua carência, além de nós da família. Já teve uns passarinhos, mas acabou matando os bichinhos por excesso de comida. Não curte cachorro, muito menos gato. Fala cuspindo, muito, e pegando. Suas verrugas pinicam e ela fala portunhol quando quer meter o pau em alguém. Todo mundo entende tudo, mas ela dá uma de louca e tudo certo. E por tantos encantos é que a tia Dirce é um capítulo importante da minha vida. Não sou muito próxima afetivamente, não temos muita afinidade além da praga que ela jogou de que serei eu a próxima louca da família. Mas, ela foi e é muito importante, quando minha mãe se separou do meu pai, ela ajudou mais do que minha avó . De certa forma, ela é minha avó desde que a Dona Julia foi pra luz. Tia Dirce, uma figura. Ainda vou fazer um vídeo dela e colocar no youtube pra vocês verem que encanto…

Música da família na versão mais original possível: La Malagueña - Plácido Domingo

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Maio
11th 2008
Oh, mundo cruel!

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Dia das Mães! Meu segundo nessa experiência, vigésimo sexto como filha. Aí hoje foi um dia muito bacana, apesar de mi madrezita ter feito questão de ir até o cemitério visitar a campa de minha avó. Eu farei o mesmo um dia, talvez. Mas não tive vontade de ir, faz um frio do cacete em Sampa, nem era tão chegada na vó. Ela dizia de mim: “Minha neta mais bonita, mas a mais malcriada” e entre seus carinhosos apelidos estava um que me encanta até hoje: feijão perdido. Preferia contar maravilhosas estórias de uma avó doce e carinhosa, mas a minha era bem figura, brava… Mas, que os Deuses a tenham em ótimo lugar, pois foi uma mulher muito guerreira e que morreu sem nunca engolir o próprio orgulho! Dei presentes e ganhei presente… Nem esperava! Obrigada, irmãozinho! Você tem me dado tanta força, apesar de nossas diferenças, você sabe que nosso amor é incondicional e que sempre estarei contigo (agüenta!).

Hoje foi um dia feliz. Continuação do churrasco de ontem que foi na casa da minha tia, ela veio com seu caçula, que é um adolescente que vi nascer e crescer, e hoje é quase um homem. E ele me falou de uma coisa que me encucou, um vídeo de um espancamento de um rapaz emo. Aí eu fui pesquisar e achei um monte de vídeos que simulam espancamentos de emos. Fiquei pensando: por que? Que é que tem os meninos curtirem um visual mais ou menos assim ou assado? Pois dizer que os emos são os caras que fazem rock and roll mela cueca é colocar muita gente nesse barco. Cantar as agruras da juventude sempre foi a moda, sempre foi ser diferente. Se agora a juventude chora por que o pai cancelou o cartão de crédito ou por que a jovem namorada resolveu ter outras experiências é apenas um reflexo da sociedade que criamos. Não precisamos de grandes problemas quando o egocentrismo é nutrido até a obesidade.

Hoje é um dia em que a palavra engajamento me faz todo o sentido, o engajamento verdadeiro, não o burocrático, duh. Mães, boas mães, têm como ideal um mundo melhor para seus filhos e que estes sejam pessoas melhores para o mundo. Eu vivo este ideal, me preocupo muito com o mundo que meu filho vai ver, como vou explicar. Gostaria muito que ele entendesse que a maior ignorância do ser humano é a intolerância, seguida pela indiferença. Se as pessoas pensassem mais no mundo de seus filhos, nos valores que nenhum dinheiro compra, na felicidade em vez do sucesso, nas semelhanças em vez das diferenças… Oh, mundo cruel! Esse mundo onde crianças crescem longe de suas famílias inspira essa moda deprê, tem que ter muita vontade para ver a beleza atrás dessa cultura do medo de ser quem realmente se é.

A trilha de hoje é bem “emo”, apesar de ter mais de dez anos, em homenagem a minha querida árvore: Creep - Radiohead

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Janeiro
15th 2008
O primeiro ano de vida

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Menos de um mês para meu filhote completar seu primeiro aniversário. Passou voando. Ele engatinha, sobe escadas numa velocidade incrível, balbucia palavras, canta, dá birra. É um bebê muito especial e não é só por que sou uma hiper coruja. Ele tem um jeitinho muito carinhoso, com todos. Não estranha as pessoas, vai no colo de qualquer um e faz festinha. Faz uma careta linda, franzindo o narizinho quando diz “nenê”. Já está nadando como um peixinho, sente-se em casa quando está na água. Todo mundo na natação o adora. Ele é calmo, generoso. Divide os brinquedos, não machuca as outras crianças, não é chorão. Ele é uma benção.

Lembro da gravidez. Me apavoravam com frases do tipo: “Nunca mais você vai dormir direito!” - e ele dorme como um anjo das 8 da noite às 6 da manhâ, sem interrupções, desde os 4 meses; “Você nunca mais vai ter sossego!” - e ele é um companheiro de leitura, de internet, de bagunça. Eu não tenho do que reclamar. Nesse quase um ano, ele nunca adoeceu, nunca se feriu, nunca deu trabalho de verdade. Apenas uma doce rotina foi incluída na minha vida desregrada.

É uma delícia ser mãe do Américo. Eu sou privilegiada. Dá uma sensação de receio pensar em ter mais um filho. Outra criança não será como ele. Talvez seja o oposto, daquelas que têm a pá virada. Mas eu quero muito dar um(a) irmãozinho(zinha) pra ele. Quero que ele tenha com quem brincar, com quem brigar, alguém para ser sua família quando eu e seu pai não estivermos mais nesse mundo. Esse primeiro ano de vida dele me ajudou a crescer de verdade. Agora eu sou muito grande, sou gente grande. E sou muito grata. Obrigada, Américo. Você fez de mim uma mulher, mãe. Você me ilumina os pensamentos, me encoraja a lutar e inspira vencer. Sua festinha, eu faço questão de preparar tudo, cada coisa, escolher cada detalhe. Você merece tudo, meu filho.

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