Archive for the 'Contos' Category

Agosto
18th 2008
O cão da praia

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Quando ele invadiu, nem imaginava que acabaria assim… Aquela casa branca, perfeita, com a vista mais linda de toda a praia…  ele tinha que entrar lá, queria se bronzear pelado naquela praiazinha linda e particular, sabia que poderia chegar lá nadando, e foi. E chegou. Esperava uma praia deserta, já sabia que um caseiro cuidava da casa em dias alternados, aquele era um dia em que nenhuma pessoa além dele desfrutaria daquele pequeno paraíso. Ao chegar na areia já arrancou a sunga, avistou a espreguiçadeira luxuosa e disponível, mirou o traseiro e ali se postou, como um paxá em seus domínios, fechou os olhos e sentiu o Sol, o barulho do mar e um rosnado…

Abriu os olhos e não acreditou que estava diante de um monstro daquele tamanho. Babando e  erguendo as bochechas, a fuça raivosa de um Rottweiller gigantesco. E territorialista, como qualquer cão. Não tinha atacado, ainda. Mas se ele fizesse qualquer movimento estaria perdido, aqueles dentes enormes rasgariam sua cara, lembrava de ter visto em algum lugar que aquela raça atacava direto no pescoço. Em um segundo imaginou sua garganta aberta aos abutres, que comeriam cada pedacinho de carne do seu gogó ossudo, sentiu um calafrio no estômago, vontade de mijar, mas ficou imóvel. Ficou imóvel por muito tempo, o Sol castigava seu pau, que nunca tinha sido exposto ao bronzeamento e ardia bastante, o suor de sua testa fazia seus olhos arderem também, mas ele não se mexia, aquele cão dos infernos estava bem na sua frente, só esperando uma deixa pra lhe estraçalhar o rosto e o resto…

Pareceram horas. O Sol castigava mais a cada minuto, o medo o fazia suar e tremer. De repente aquele cão dos infernos resolve deitar, mas não sai de perto. Ele sente uma ponta de esperança, talvez se o cachorro adormecesse ele conseguiria chegar até o mar pra fugir nadando. E sua esperança aumentava conforme o cachorro pegava no sono. Conseguiu alcançar a sunga, bem em câmera lenta a vestiu, sem sair da espreguiçadeira, sem se levantar. Todo seu corpo tremia por dentro e por fora de pavor quando colocou um pé na areia, olhava pro cachorro com uma expressão lunática de desespero, o quadrúpede continuou sua soneca, pareceu nem perceber que o cara estava tentando escapulir. E pé ante pé ele chegou até o mar, sentiu-se salvo, era só nadar e voltar de onde tinha saído pr’aquela aventura estúpida em propriedade alheia. Olhou pra trás e gelou: o cachorro tinha acordado e parecia estar apreciando sua fuga, sentado, com um ar debochado de quem está dando corda pra alguém se enforcar.

Apavorado, ele correu pro mar, pulou as ondas e começou a nadar. Uma braçada mais forte que a outra, vontade de vencer o mar e fugir pra sempre daquele monstro canino. Quando o mar não dava mais pé, resolveu parar e olhar pra trás,  de novo.  Não acreditou no que seus olhos viam, mais uma vez… Aquele maldito animal sabia nadar perfeitamente, e estava indo atrás dele…

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Julho
21st 2008
Glue

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Era uma tarde de chuva, ela pegou o carro e foi, sem saber o que encontraria de verdade…

Ele estava lá, esperando ela chegar, com medo de esperar, com medo dela, toda malvada, toda fantasia.

Ela o viu primeiro, mas ligou só pra ter certeza de que estava certa, era ele mesmo. Esperava menos, esperava um menininho, um adolescente com espinhas além das crises existenciais.

Nem acne nem crise existencial, foram pra um boteco tomar umas cubas, e ele nem notou que ela percebeu que seu problema não era a vida, mas a falta de sentimentos nela, falta de problemas que dão o sentido da vida.

Ela achou que ele era um medroso sem motivo, e estava certa. Um dia ele confessou:  “– Tive medo de ser rejeitado…” E ela achou a maior graça, era o medo oposto ao dela.

Ele não percebeu que o medo dela era o de ser absorvida, de nunca mais se encontrar de novo como ser singular na vida.

Ele, por não se entregar… Ela, por ter se entregado mais do que queria…

Medrosos, mas apaixonaram-se. E ficaram com medo mesmo depois de assumirem esse sentimento.

Ele com medo de ela ser uma bruxa que devoraria seu pobre e pseudo-inexistente coração.

Ela com medo de ele estar apenas encantado com o que fantasiou…

Tão diferentes, ela parecia fogo, mas era pura água… Ele parecia aéreo, mas tinha firmeza de terra.

Universos paralelos que se cruzaram. Despertaram e criaram uma realidade só pra eles…

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Junho
16th 2008
Pessoa-coelho

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Tudo ainda estava embaixo dos panos, as autoridades ainda conseguiam abafar o caso e a grande imprensa tinha concordado em não fazer um escarcéu sobre o misterioso caso das pessoas que estavam se transformando em pessoas-coelho. Apenas um caso tinha vazado, mas a imprensa o tratou como “apenas uma aberração genética”, e pouca gente se interessou pelo assunto, menos Ekile. Sua irmã tinha se tranformado num ser pra lá de estranho, as orelhas tinham migrado pro topo da cabeça e crescido em comprimento e pêlos; os olhos ficaram vermelhos e o corpo tinha uma pele branca, peluda e macia. Ainda andava sobre duas pernas, mas até um rabinho pom-pom tinha nascido na bunda da coitada. Ele viu a “aberração genética” na TV e percebeu que aquilo não era comum. O homem-coelho da TV não nasceu daquele jeito, e tinha dito que a transformação aconteceu em semanas, sem que os médicos soubessem do que se tratava, sem que pudesse evitar ou explicar. Assim como a irmã de Ekile, ele virou um ser que adora cenoura e, mesmo andando como gente, adora dar uns pulinhos durante a caminhada.

Ekile queria descobrir o que aconteceu, pegou sua irmã e pegaram a estrada, foram atrás do homem-coelho.  Eles imaginavam que duas pessoas-coelho poderiam conseguir mais atenção dos médicos e autoridades, que não se tratava de um caso isolado e, talvez, houvesse mais pessoas-coelho. A irmã de Ekile até saiu um pouco da pertubadora apatia que a assolava desde que se transformara em mulher-coelho, finalmente não seria a única pessoa-coelho que existia. O tal homem-coelho não morava tão longe, logo chegaram em sua cidade. Ekile não precisou perguntar muito, todos conheciam o homem-coelho da TV, ficou famoso na cidade onde a maioria o temia por não compreender a mutação. Na casa do homem-coelho, Ekile soou a campainha. Quem atendeu foi o próprio homem-coelho. E ele nem olhou pra Ekile, apenas pra sua irmã, uma mulher-coelho. E ela também o olhou de uma maneira lasciva, estava no cio da coelha. Entraram na casa do homem-coelho, deixando Ekile do lado de fora. Qualquer problema em ser uma pessoa-coelho ficaria pra depois…

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Maio
25th 2008
Bem feito pra ele

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parte III

Passei o dia aflita pelas oito horas, na minha idade os dias parecem se arrastar, a curiosidade me tirou até a fome. Fui até o portão cinco minutos antes das oito e pude ver sua empregada sair. Assim que ela virou a esquina, toquei a campainha da casa dela. Ela abriu quase imediatamente, veio apressada abrir o portão e me fez entrar como se estivesse apavorada com a idéia de alguém nos ver. Eu entrei o mais rápido que consegui, em silêncio, e me deparei com uma casa que parecia mais uma sala de espera de consultório. Poucos detalhes, tudo impecável e impessoal, nada de porta-retratos ou enfeites trazidos de viagens, tudo muito limpo e até assustador. Ela me olhou nos olhos muito aflita, não me perguntou se queria sentar ou beber algo, parecia estar em pânico ou louca. Perguntou como uma acusação: “Então você pode me ajudar?” - “Olha, minha filha, eu ouço as brigas de vocês e fico com pena… queria ajudar, mas não sei…” - ” Você pode? Quer ajudar ou queria?” - “Eu quero!” - Não sei se disse isso só para saber a história, naquela hora o que me mais me corroía era a curiosidade, mas queria tanto saber que não me importei com o que viria.

Ela se sentou, sem tirar os olhos de mim. Eu fiz o mesmo. Começou a chorar, mas falava sem pausas: “Eu me casei com ele sem saber que era uma pessoa tão cruel. Tenho um filho, bem… é como se fosse. Sou orfã desde os três anos, cresci num orfanato de onde fugi aos quatorze anos, foi quando entrei para uma companhia de dança e encontrei minha vocação… Quando tinha dezesseis, estava voltando para uma casa que dividia com mais quatro amigos quando vi uma mulher abandonar uma criança na praça. Estava muito frio, eu sabia que não adiantaria ir atrás da mulher, peguei o bebê e o levei comigo, e o levei pra sempre. Era meu filho… Eu conheci meu marido há dois anos, ele parecia ser um bom homem, honesto e disposto a ficar comigo mesmo sabendo que eu tinha esse filho. Ele nunca soube que não é meu mesmo, ou sei lá o que seria capaz de fazer. Quando nos casamos, ele adotou meu filho como se fosse dele, e o colocou num colégio interno… Isso é o que ele diz. Eu preciso saber onde está meu filho! Isso é tudo o que me prende aqui… Não posso fugir sem saber onde procurá-lo… Me ajuda?”

Fiquei sem reação. Era um caso bem cabeludo pra se resolver, não sabia o que uma velha como eu poderia fazer pra ajudar, por onde começar ou o que procurar. Tentei acalmá-la, seus olhos estavam desesperados em mim, implorando por alguma esperança. Não pude desapontá-la, prometi tentar descobrir onde era o tal orfanato, prometi também que não contaria nada na vizinhança. Saí com a sensação de ter uma grande missão pela frente, uma aventura tardia, revigorada. Claro que ela só me pediu ajuda por falta de opção, ninguém mais sabia tanto de sua miserável vida além de mim, e passei a saber ainda mais quando comecei a investigar o lixo e a seguir o facínora. Depois desse nosso primeiro encontro não sabia quando poderia vê-la novamente…

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Abril
28th 2008
Bem feito pra ele

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parte II

Talvez coragem não seja uma boa definição. No caso dela, acho que foi o desespero. Desde o dia em que me mandou cuidar de minha vida, passei a cuidar ainda mais dos rumores da casa ao lado. Encostava o ouvido nas paredes para escutar as discussões.  E foi quando realmente passei a perceber aquela mulher. Coitada… O marido lhe obrigava a ser sua escrava particular, e sempre a humilhava quando ela parecia fazer algo para agradar-lhe. E falava de um jeito que homem nenhum falaria com uma mulher, pelo menos não os  que gostam de mulher. Talvez ele não gostasse, mas nossa sociedade ainda aceita melhor um enrustido que um assumido. Ela chorava enquanto ele lhe dizia que era feia, que estava ficando flácida. Uma injustiça! Ela era realmente uma mulher linda, capaz de satisfazer os olhos de qualquer homem que admire de fato a beleza feminina. Ouvi os desmandos de seu marido florzinha por duas semanas e decidi lhe enviar uma carta. Mas fiquei num dilema terrível sobre o que escrever.

Depois de quase uma semana rabiscando páginas com a intenção de mostrar que queria ajudá-la, acabei por enviar um bilhete com apenas os dizeres: ” Quero te ajudar!”. Joguei o papel pelo quintal dos fundos quando ela estava em uma das suas sessões de choro escondido. Maldita hora! Ela não viu o papel e quem acabou encontrando foi o meticuloso marido, que adorava fiscalizar o trabalho da empregada ao final de todos os dias e infernizar a pobre com humilhações e gritos. O tal sujeito parecia sentir um imenso prazer em destratar as pessoas que lhe serviam. E, naquela noite, a briga foi um inferno. Se é que se pode chamar de briga o desconstrole de um homem que gritava histéricamente, acusando a mulher de traição com uma voz estridente, batendo os móveis e sozinho. Eu só a ouvia chorar. Chorar e soluçar. Imaginava qual a razão para ela não reagir, mas minha dúvida não ficou muito tempo  sem resposta.

Em uma briga dessas de todos os dias, ouvi ele ameaçar-lhe: “HA! Você quer saber? Nunca vai saber! E só vai colocar os olhos nele de novo se eu permitir!” - Fiquei imaginando quem seria ele, o que seria. Parecia ser esse o motivo de tanta submissão, ele escondia algo que pertencia a ela. O que seria? Uma semana se passou desde o papel que atirei, nem esperava qualquer resposta e já tinha desistido de tentar qualquer outro contato quando recebi um bilhete pelo quintal dos fundos. A letra parecia apressada, dizia apenas: “venha às 8, estarei só”. Não tinha data nem assinatura. Mas eu sabia que era dela e que tinha sido jogado naquele dia. Fiquei muito ansiosa pela noite, pois finalmente a veria e, talvez, saberia o que se passava naquela casa. Passei o dia todo pensando no que dizer, em como dizer. Não esperava saber de tanta tristeza…

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Abril
15th 2008
Bem feito pra ele

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PARTE I

Quando ela me contou, eu nem acreditei. Foi de repente, ela soltou tudo de uma vez, foi desabafo ou um ataque verbal. Fiquei pasma e passei a admirá-la ainda mais. Não que eu admire atos de violência, mas o dela foi mais que legítima defesa, foi verdadeira desforra sobre a tortura. E foi preciso escutar muitas outras coisas antes, foi preciso conhecê-la melhor e saber além do que eu via e ouvia através do muro que separava nossas casas. Muitas pessoas falavam dela, mas nunca tinham ouvido nada diretamente de sua boca. Eu sempre ficava sabendo pela Leonora, minha empregada. “A dona Márcia disse que ela casou com ele por dinheiro, deve ser uma pilantra!”, “Fiquei sabendo que o marido fica nada em casa, vive pro trabalho. E ela fica em casa o dia inteiro, não sai pra nada… dizem que já foi bailarina, deve ter sido essas dançarinas de boate!”

Leonora era venenosa, eu sabia. Mas eu gostava de ouvir sobre a mulher com quem dividia as paredes da casa geminada e sobre quem nada sabia, mal tinha visto, para ser honesta…  Leonora era feia e invejosa, a vizinha era nova- talvez bonita- e misteriosa. E, pelo visto, tinha se tornado o assunto da rua desde que mudara com o marido para a casa que foi de Marlene… Que saudades da minha amiga! Quase todo dia Leonora me contava uma nova notícia sobre ela. O que eu pude entender de toda a intriga é que era mais nova que o marido, que era muito feio pra ela; que passava horas lendo trancada em seu quarto; que talvez tivesse medo da própria empregada e por isso quase não comia… Eu nem imaginava! Tudo o que Leonora me contava sobre ela me fazia entender que era infeliz, estava sozinha. Eu, antes, tentei me aproximar uma vez que a ouvi chorando no quintal dos fundos. Perguntei se ela estava bem, tentei vê-la por cima do muro, mas ela abaixou e respondeu que sim, e foi muito malcriada quando me disse para cuidar da minha vida. Fiquei sem reação na hora, mas perguntei por que chorava… Ela se levantou e sussurrou perto do muro: “cada escolha foi uma renúncia, estou chorando por que eu QUERO!!!” - então ela gritou o quero e saiu correndo, pude ver que vestia uma longa camisola vermelha muito bonita, mas não pude ver seu rosto direito, fiquei o dia inteiro pensando nela. Quem diria que seria capaz de tamanha coragem!

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Março
22nd 2008
Árvore de estrela

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Era uma vez uma árvore de estrelas que morava na montanha mais alta, bem pertinho do céu. Quando era noite, e o céu estava limpo, ela jogava seus frutos pro ar. E eles enfeitavam a escuridão, brilhando com toda a força para competir com a luz do luar. Quando a noite acabava, e o Sol iluminava o dia, os frutos desapareciam do céu e a árvore preparava outros, para a próxima noite. E cada fruto que desaparecia com o dia deixava sementes de luz, que se transformavam em novas idéias para as pessoas que os tinham admirado durante a noite.

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Março
1st 2008
O gosto de A.

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Ela devora as coisas a sua volta e sorri para o vazio. Absorve tudo com os olhos e ouvidos e nariz. Não toca e nem lambe, ainda… Quando ninguém está olhando, ela chega mais perto e coloca a mão, depois dá uma lambidinha e faz cara de nojo. Nunca tinha visto um cadáver antes, mas era assim que experimentava a vida. Sempre levou bronca quando flagrada com a boca onde não devia. Mas o gosto das coisas era o que mais lhe atraía na vida… O gosto. Aquele cadáver tinha gosto de pó e ferida. Não estava com medo por que acreditou quando sua tia lhe jurou que fantasmas não existiam e que a casa não era má assombrada. Elas tinham passado a noite quase inteira com a luz acesa e nenhum fantasma apareceu. Então seu pai agora era apenas um cadáver e o espírito tinha sido levado pro céu pelo seu anjo da guarda. Não tinha virado um fantasma.

Colocou uma flor na boca. Já tinha provado daquelas. Uma flor amarela, com muitas pétalas, cris… cris… “Crismânteno!”. A sala estava quase vazia. Sua avó tinha passado por ali e deixado todo mundo chocado. Uma cena e tanto. Una bruja vieja, como sua mãe dizia. Um lenço sujo amarrado nos cabelos brancos e muito compridos, verrugas pelo rosto e olhos assustadores num corpo encurvado e coberto de negro. Era quase de seu tamanho, notou quando a velha chegou quase carregada pelos outros tios, mas parecia que nunca tinha sido uma criança. E seu pai era o filho caçula e preferido da avó. Ela gritava e chorava de maneira estidente na cabeceira do caixão: - Hijo de mi alma!!! Hijo de mi corazón!!! Por qué murió antes que yo? Os gritos eram tão tristes… Ela esmurrava o peito, rasgava o pescoço com as unhas e chorava tanto que tiveram de secar o chão quando saiu desmaiada. As lágrimas da avó tinham um gosto amargo, salgado e ruim. Aquele devia ser o gosto da amargura e do desespero. Quanto levantam o caixão, ela sente um frio na barriga. E agora? Então é nunca mais? Sentiu uma culpa enorme por não ter contado ao pai sobre o relógio que quebrou e escondeu. Desaba a chorar. Nunca mais…

- Pai! Seu relógio! Fui eu quem quebrou, eu enterrei no quintal pra você não ficar bravo comigo… Pai! Não precisa morrer! Me desculpa! - Sua mãe também recomeça a chorar e seus irmãos menores também. Um calor e uma vergonha com gosto seco e nó na garganta lhe sube pelas orelhas e ela pára de chorar. Agora ela tinha de ser uma mocinha, foi o que sua tia disse. Tinha de ajudar a mamãe a cuidar dos três irmãozinhos… Sua mãe a abraça e diz: - Não é culpa sua, filha! Deus é injusto! Deus que é injusto! Sua tia lhe pega pela mão e diz que a mãe está muito triste, que não sabe o que diz, que Deus é bom. Ela fica confusa, mas Deus é sua menor preocupação agora, pois queria saber o gosto que tem um cemitério. E estão quase chegando quando ela vê, pela primeira vez na vida, um periquito de realejo. Leva um puxão da tia, que olha bem feio. Sente mais um calor de vergonha, mas a vontade de saber o que era aquilo a tinha hipnotizado. Onde já se viu deixar o funeral do pai pra ir brincar com um passarinho? Agora, ela é uma mocinha! Tem de se comportar e não irritar a mamãe. - Nunca mais eu vou lamber as coisas perto da minha mãe! Apesa de dizer bem baixinho, a tia ouviu. - Que você disse? - Vergonha quente de novo, mas na tia ela confia pois é a pessoa de quem mais gosta depois do pai… - Disse que eu não vou mais lamber as coisas perto da mamãe. A tia sorri e lhe aperta os ombros. Chegam, enfim, ao cemitério. Ela devora as coisas a sua volta.

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Fevereiro
13th 2008
Lábaro

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Se fosse pra escolher, queria ser super-herói. Passava quase todo o tempo defendendo os fracos e oprimidos que o jornal mostrava, e reclamava até mesmo do fato de usarem a miséria humana para a manchete chamar mais atenção.  Era contra o sensacionalismo, a imprensa cor de cocô. Era a favor da “imparcialidade” pseudo-marxista de seus colegas boêmios. Esses, sim, sabiam da “miséria” que é a burguesia.

Era apenas um jornalista. Jornalista era boêmio. Boêmio era vagabundo. Ele não passava de um vagabundo aos olhos de Luciana. Mas queria ser o herói da moça para conquistar seu coração e, quem sabe, namorá-la. Muitos diziam que ela era modernosa por que namorou e não casou. Ele nem se importava, desde que ela o aceitasse também. Mas ela fazia  que ele nem existia. Tratava-o apenas como mais um vagabundo que trabalhava para o jornal de seu pai.

E seu pai, Sr. Rashid, era uma fera. Turco com gastrite. Só pensava em vender mais jornal, mais anúncios, mais manchetes. Não pensava duas vezes em destruir a vida de uma pessoa quando a reportagem prometia vender bem. Não se importava com a verdade de fato. Repetia sempre: “Se ele disse, basta escrever que foi ele quem disse e pronto!”. Não pensava duas vezes em demitir um jornalista que o contrariasse e, segundo a lenda, tinha mandado matar um fotógrafo que, supostamente, tinha fotografado sua falecida esposa, nua, no colo de seu motorista, também nu. O fato é que o tal fotógrafo tinha trabalhado para o homem e tinha sido assassinado brutalmente. A falecida esposa morrera algumas semanas depois. Nada foi investigado pela polícia.

Luciana era filha daquele cara e ele era um zé-ninguém que não teria chances. Só conseguiria a pequena se arrumasse uma maneira rápida de conseguir dinheiro fácil. Na sua profissão isso nem era tão difícil. Ele só precisava ter peito para arriscar a própria vida ameaçando algum político. E ele tinha bastante “material” para o “serviço”.

Escolheu um político bem rico e bem podre, daqueles que nem é preciso investigar muito para descobrir atrocidades que incluíam pedofilia, tortura de inimigos políticos, o assassinato de um padre “comunista”, apropriação indevida de espaço público, corrupção ativa e passiva, e mais muitos outros crimes que ocupariam algumas horas para contar. Era conhecido como Sr. Alvin, mas até esse nome poderia ser um crime. Ele escolheu Alvin não por que era um criminoso mais que conhecido, e sim por que ele não temia a justiça e não fazia a menor questão de esconder suas atividades criminosas.

Montou uma armadilha para Alvin. Queria uma foto bem comprometedora. Queria um escândalo de verdade. Nenhum crime cometido pelo homem tinha sido sequer investigado. Decidiu que não adiantaria pegá-lo pela ética ou moral, teria de ser pelo ego mesmo. Teria de ser algo que mobilizasse a todos contra ele. Teria de ser um flagra que comprovasse que o homem era um inimigo público perigoso. Divulgou, então, que naquela tarde haveria uma homenagem ao Sr. Alvin, no parque municipal, ao anoitecer. E a notícia se espalhou depressa.

O Sr. Alvin não se mostrou surpreso com a homenagem. Sorria satisfeito, com um ar de quem sempre foi - e deveria continuar sendo sempre - homenageado. Arrumou-se com esmero para a celebração. Cumprimetou o Sr. Rashid e as outras pessoas “importantes” no evento. Passou direto pelo idealizador da “homenagem”. Brindou aos importantes erguendo sua taça de cristal e rindo satisfeito. Comeu os canapés sem perceber que tinham laxantes poderosos. Disfarçou muito bem quando suou frio de dor de barriga. Se esquivou para uma moita de maneira sorrateira, calculando que chegar ao banheiro seria um desastre. Abaixou as calças quase sem tirar os suspensórios e sem olhar para o lugar em que realizava sua grande “obra”.

Não percebeu os dois clarões do flash da máquina fotográfica por que tinha fechado os olhos, tamanho o prazer do alívio que sentia. Quando acabou, limpou-se com um guardanapo de seda que furtara da comemoração exatamente para essa finalidade. Ao subir as calças, deu-se conta que tinha cagado em cima de um pano. Ao olhar melhor, percebeu que era a bandeira do Brasil. Não fez caso e voltou para a festa. Não demorou para uma velha histérica achar a bandeira. Nao demorou para todos excomungarem o cagão e até a quinta geração de sua família. Não demorou para o homenageado arrumar um bode expiatório pobre e acusá-lo na frente de todos. O plano não poderia estar mais perfeito. A foto do lábaro cagado pelo Sr. Alvin seria o passaporte para o coração de Juliana.

Continua…(talvez)

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Janeiro
16th 2008
O despertar

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Um certo dia ela não acordou, mas despertou para uma realidade bem esquisita. Ela estava deitada, parecia dormir, só que dentro de um caixão. Pessoas choravam em volta. Ela via o seu corpo ali, mas enxergou como se fosse de outra pessoa. Aquele corpo não mais lhe pertencia. Seria a morte? Sim. Ela sabia. E sabia que não conhecia esse lugar: o além. Não havia além para ela, que estava ainda aqui. Sabia-se morta, mas vagava entre os vivos, entre os seus. E então se deu conta que inha deixado alguém, quis chorar. Sentiu um nó na garganta, uma sensação de mal estar lhe percorreu o que um dia foi estômago, mas não houve lágrimas para aliviar tanta agonia. Era como se fosse explodir. Nem explodia, nem chorava. Apenas aquilo e a lembrança de seus filhos. Ela deixou dois filhos para trás. Mas ela podia vê-los, ouví-los. Não podia tocá-los, eles não a viam. Eles é que perderam a mãe. Ela não os perdeu. O pai de seus filhos, ele a perdeu. Muito antes de sua morte. E agora sentia o desespero da ausência dela. Não era saudade, era desespero. Ele, que nunca mais a tratou como a mulher amada, que nunca mais tinha escrito pra ela ou pintado seu retrato. Ele estava só agora. E só poderia estar desesperado. E ela também estava. O desespero  tomou os dois e a casa que já fora um lar feliz, teve seu clima carregado, pesado. As crianças dormiam muito e, quando acordavam, choravam a falta da mãe. Ela chorava, sem lágrimas, seu desespero implosivo; ele chorava com as crianças, como uma criança.

O tempo passou. As crianças choravam menos, o marido chorava quase nada, a vida continuava. Menos pra ela, que jazia ali, de alguma maneira. Será que a alma poderia morrer mais que o corpo? Será que ela ficaria eternamente assistindo ao próprio esquecimento? Os dias nasciam e morriam, e nenhum sinal de Deus, Diabou ou qualquer outro fantasma que quando estamos vivos temos medo de encontrar. Nenhum sinal de vida e nem de morte. O que era ela, afinal? Tinha morrido, mas despertava em sua cama todas as manhãs. Estava morta, mas não ía embora dali. Seu filho crescia. Sua filha também. Ele tinha mais lembranças. Era ele quem consolava a irmãzinha quando ela chorava por não se lembrar da mãe. Era ele quem a mantinha aqui. O marido já a tinha esquecido, vivia até uma nova paixão.

A paixão dela era aquela família. E só depois de morrer aprendeu que tudo vive quando você não está mais lá, tudo continua. Ela nem mais pensava em até quando seria prisioneira da vida que perdeu. Apenas estava ali. E ali continuaria pra sempre a cuidar de seus filhos…

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