O primeiro parto

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A Chu foi uma gata muito especial, apesar de hoje desfrutar do céu de Bast, será sempre lembrada e reverenciada como uma das melhores amigas que eu tive. Logo que me separei e voltei pra casa da mamãe, levei comigo um gato muito especial: Capitão. Um elegante albino, cuja história eu conto em outra oportunidade. Um dia o Capitão morreu. E eu, inconsolável, passei num Pet Shop e vi um filhote albino pra adoção. Não pensei duas vezes. Levei pra casa. Eu já tinha o Faísca nessa época, e ele era um filhotão também. Achei que com o novo filhote ele não sentiria muito a falta do Capitão. Que nada! O filhote era a gata mais briguenta que eu já tive. Ela não pesava nem meio quilo, mas fazia um barulho igual ao de uma fera. Batia muito no Faísca nas primeiras semanas. Depois se apaixonaram e viveram felizes, um belo casal.

Quando ficou adulta, ela era a gata mais linda do mundo. Recebeu o nome de Chu graças ao rabo de trovão que ela tinha igual ao do Pikachu. Ela parecia adorar seu nome. Toda branquinha, olhos azuis, pêlos compridos, miúda e muito ágil. Eu a vi colocar um cachorro Huski pra correr, e a vi muitas vezes bater em muitos cachorros da vizinhança. Ela era o terror dos cães que ficavam presos, ela sentia um prazer sádico em passear nos muros dessas casas só para ver os coitados se esgoelarem de tanto latir. Era uma bichinha muito arisca. Não gostava de colo, não deixava que estranhos a acariciassem. Caçava ratos, passarinhos e até um morcego ela trouxe pra minha cama, de presente. Eu nunca brigava com ela, não reprimia seu extinto caçador. Achava até muito bacana ela preservar seu espírito selvagem. Ela se achava a própria tigresa albina. E se achava a dona da casa. Até hoje, na casa da minha mãe, é possível ver as marcas de suas unhas na porta de um guarda-roupa. Ela subia lá para ter sossego, para ficar acima das chatices cotidianas que a vida com humanos causa.

E então ela ficou prenhe da primeira cria. O pai era o Faísca, eu acho. Na verdade eu nunca terei certeza. De todas as crias que ela deu, não nasceu nenhum filhote com cor. Todos eram albinos, como ela. E fora, ao todo, 19 filhotes. Eu vi todos nascerem. É incrível como os animais sentem o quanto gostamos deles. Ela era super antisocial, não era o tipo carente, era muito independente, mas quando percebeu que seria mãe, voltou a se aproximar de mim. E, no dia que ela daria a luz, eu já sabia. Não sei explicar essa percepção que tenho, mas sei quando as gatas vão parir. Eu sabia. Ela passou a noite toda na minha cama, eu sabia que a hora estava chegando. Quando a bolsa estourou, ela enlouqueceu e queria porque queria subir no guarda-roupa. Não teve Cristo que me fizesse impedi-la. Não teve jeito. Ela subiu e não sairia dali até que os filhotes nascessem.
Eu fiz o que podia: Subi numa parte do guarda-roupa e tentei ajudá-la da melhor maneira possível. E então nasceram os quatro fabulosos primeiros filhotes de Chu. Não foi nada difícil arrumar donos para eles. Não sei por que as pessoas preferem gatos brancos, mas todos já estavam prometidos. E fizeram muitos lares felizes, como a Chu fazia o meu.

O Bonito Esculápio

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Vou contar uma história que poderia ser sombria se eu desse ouvido aos ignorantes que disseminam pelo mundo as crendices, os preconceitos e as superstições. Era uma sexta-feira 13. E ele entra pela porta da sala com um presente no bolso da jaqueta. Preto, feio de doer. Orelhas enormes, magrelo, cheio de remelas… Eu me apaixonei. Meu primeiro gato preto, ganhado numa sexta-feira 13. Foi pura sorte!

Como sempre A-D-O-R-E-I nomes diferentes, batizei esse bichano de Esculápio. Claro que ele não gostou do nome e não atendia nem por decreto. Cresceu e escolheu o próprio nome: ele só olhava quando chamávamos de BONITO! E ficou, o Bonito Esculápio. Cresceu e ficou lindo, um pretão com estilo de pantera. Era o típico vira-lata, vivia na gandaia noturna, sempre voltava com um teco a menos da ponta da orelha, trazia amigos pro nosso quintal, caçava os passarinhos filhotinhos que caíam das árvores vizinhas, comia insetos nojentos, marcava território… Era um típico gato saudável.

Preferia minha mãe. Talvez porque o carinho dela era mais calmo, talvez por ela não mordê-lo nem apertá-lo como eu fazia. Ele amava a minha mãe. E aí de quem estivesse perto dela quando ela gritava ?Ai!?. O Bonito descia o dente sem dó. E ele era cheio de truques que enchiam nosso cotidiano de risadas. Tinha mania de se esconder num pequeno jardim, que ficava ao lado do corredor de entrada, e quando alguém passava por ali de noite, ele pulava nas pernas do infeliz para dar um susto. E minha tia-avó, idosa, religiosa e fã de passarinhos; era sua vítima favorita. Era sádico, porém irresistível assistir tal cena.

E ele seguiu vivendo uma vida muito boa, apesar dos arranhões. Até que um dia, uma enorme tragédia aconteceu. Digo enorme por que perto dele, ela era muito grande mesmo. Minha tia, que é gorda, pisou, sem querer, na pata dianteira dele. Esmagou. Nessa época eu estava casada e não morava com minha mãe. Apesar de ter tentado levá-lo para meu novo lar, ele preferiu ficar com minha mãe e eu o deixei, então, na casa dela. Mas o machucado o trouxe para meus cuidados novamente. Minha mãe não tinha tempo nem frieza para cuidar da pata do bichano. Eu cuidava. Ouvia-o chorar de dor a cada sessão de banhos para desinchar o ferimento.

Cuidei, levava duas vezes ao dia na veterinária, medicava e tentava fazer com que ele se tornasse amigo dos gatos dessa nova casa: o Capitão e o Morango. Não tinha jeito. O Bonitão era um negão invocado e não queria saber de dividir nada. Ele estava acostumado a ser O Gato da casa. E lá ele não era o dono do território. Sentia-se assustado e irritado. Estava com uma atadura na pata e faltavam apenas dois dias para tirá-la e ele voltar para a casa de minha mãe, sua casa. Desapareceu. Acho que devia estar forte o suficiente, desapareceu. Não voltou pra casa da minha mãe (a distância não era tão grande), não voltou para a minha casa. Apesar de vários cartazes oferecendo recompensa pelo gato, quem nota um gato preto no meio da rua?

Quando penso no Bonito, acredito que ele se transformou em noite. Seus pelos viraram brisas úmidas que carregam cheiro de Damas da Noite, seu olhar se transformou em luz de lua cheia, sua agilidade se transformou na inconstância que o desconhecido noturno planta no nosso coração. Ele ainda tem muitas vidas pra viver…

Meu primeiro amor felino

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Eu estava no início da fase mais complicada e mais bonita da vida. Para chamar a atenção da minha mãe que, na minha cabeça, gostava mais do meu irmão, tinha cortado o pulso esquerdo e tomado veneno. Eu não queria morrer, só queria que ela acreditasse que eu queria. Queria fazê-la sofrer. Freud explica que magoamos quem mais amamos quando estamos formando nossa personalidade. Talvez tenha sido isso. Talvez tenha apenas sido uma maneira desesperada de chamar atenção para o meu ciúme, para a minha necessidade de ter alguém que eu amasse por perto.

Fiquei uns dias na casa de uma tia. Lá, meu primo, que tinha sido meu melhor amigo por toda a infância, estava na mesma fase difícil de crescimento. Eu estava muito sozinha. Quando voltei pra casa, uma surpresa que me curou pra sempre: BEL. Um filhote todo cinza, de olhos verdes, com coleira e guia. Miava, miava… Queria brincar, queria que o soltassem. E foi a primeira coisa que fiz. Foi amor à primeira vista. Quando soltei sua coleira da guia e o peguei no colo percebi que nunca mais me sentiria sozinha. Acreditei que tinha ganhado meu melhor amigo.

Ele cresceu muito, ficou uma bola de pêlos. Era o dono da casa. Morávamso só eu, minha mãe e o meu irmão. A mesa de jantar tinha quatro lugares e o Bel sempre ocupava o que estava vazio. Não subia na mesa, nem pedia comida. Apenas acompanhava nossa refeição. Chorava alto quando ouvia o som agudo de algum instrumento de sopro. Geralmente mordia alguém, de leve, quando isso acontecia. Dormia comigo. Melhor dizendo, dormia em cima de mim. Na época eu tinha o peito reto como o de um menino, e o Bel deitava ali, com a cabeça apoiada na minha bochecha e ronronava muito feliz. E eu me sentia feliz por isso.

Certo dia ele sumiu. Mais de um mês sem aparecer, nem notícias… Já tínhamos perdido as esperanças quando ele aparece miando pelo quintal, sem sinal de machucado, sem um grama a menos. Concluí que ele tinha sido raptado, mas conseguiu fugir r voltar para meus braços… Hoje penso que ele deve ter achado dono mais bonzinho, ou uma fêmea que morava longe… Especialista em abrir o vitreaux e fugir pra rua, Bel era um felino caçador adormecido. Não pegava nem barata. Era manso demais pra fazer qualquer esforço que não fosse chegar até a ração. E assim foi por quase três anos, até que um envenenador o levou de mim. E hoje ele está no céu de Bast.