Archive for Fevereiro 13th, 2008

Fevereiro
13th 2008
Quem não tem coração

Posted under É com a Lia

Às vezes, acho que algumas pessoas não têm coração. Não estou falando de criminosos assustadores ou pessoas loucas de verdade. Estou falando de pessoas que conheço. Tem gente que parece que não tem coração. Julga sem conhecer, agride pelas costas, maltrata quem deveria ser amado. Tenho coração demais, eu acho. Tento não deixar transparecer para que ninguém se aproveite da minha nobreza. Talvez por isso esteja sofrendo tanto essa fase. Não enxergo se estou evoluindo profissionalmente ou se, na verdade, estou criando um futuro problema de culpa. Na verdade, a culpa está doendo, me consumindo de verdade.  E estou bem sozinha nessa jornada. Não sei a diferença entre pai e mãe, afinal só tive mesmo mãe. E ela conta até hoje, algumas vezes com os olhos marejados, de uma vez em que ela me perguntou o que eu queria da feira, pois ela estava em um raríssimo dia de folga e queria comprar frutas para nós. Eu lhe respondi que queria morangos e, quando ela trouxe, eu, cruel infante, lhe disse com todas as letras que aquela caixa de morangos não me compraria; que queria que ela ficasse em casa em vez de comprar morangos uma vez por semana. A solução que minha pobre mãe encontrou foi trabalhar a noite para ficar em casa, conosco, durante o dia todo. Desde então, ela chegava do plantão às 8 da manhã e ficava sempre conosco. Olhava nossos cadernos todos os dias, fazia parte do conselho da escola, ajudava nos ensaios das peças de teatro, fazia cuzcuz-mirim para as festas juninas. Enfim, participava.

O Américo ainda não fala. Mas já vejo seus olhinhos me pedindo para não ir embora e deixá-lo na escolinha, já o vejo sentindo inveja das crianças que só precisam ficar meio período longe de casa, já me vejo comprando morangos para compensar a culpa que sinto por não poder ser apenas o que quero: mãe do Américo. O resto, se tiver de ser, será… Ou seria. Quando a pressão é inadequada, em vez de dar impulso, derruba. Eu sei que não demora pra explodir, se continuar cedendo assim. Trato é trato. Odeio quando as pessoas negligenciam a única coisa que um homem de verdade pode ter: palavra.

1 Comment »

Fevereiro
13th 2008
Lábaro

Posted under Contos

Se fosse pra escolher, queria ser super-herói. Passava quase todo o tempo defendendo os fracos e oprimidos que o jornal mostrava, e reclamava até mesmo do fato de usarem a miséria humana para a manchete chamar mais atenção.  Era contra o sensacionalismo, a imprensa cor de cocô. Era a favor da “imparcialidade” pseudo-marxista de seus colegas boêmios. Esses, sim, sabiam da “miséria” que é a burguesia.

Era apenas um jornalista. Jornalista era boêmio. Boêmio era vagabundo. Ele não passava de um vagabundo aos olhos de Luciana. Mas queria ser o herói da moça para conquistar seu coração e, quem sabe, namorá-la. Muitos diziam que ela era modernosa por que namorou e não casou. Ele nem se importava, desde que ela o aceitasse também. Mas ela fazia  que ele nem existia. Tratava-o apenas como mais um vagabundo que trabalhava para o jornal de seu pai.

E seu pai, Sr. Rashid, era uma fera. Turco com gastrite. Só pensava em vender mais jornal, mais anúncios, mais manchetes. Não pensava duas vezes em destruir a vida de uma pessoa quando a reportagem prometia vender bem. Não se importava com a verdade de fato. Repetia sempre: “Se ele disse, basta escrever que foi ele quem disse e pronto!”. Não pensava duas vezes em demitir um jornalista que o contrariasse e, segundo a lenda, tinha mandado matar um fotógrafo que, supostamente, tinha fotografado sua falecida esposa, nua, no colo de seu motorista, também nu. O fato é que o tal fotógrafo tinha trabalhado para o homem e tinha sido assassinado brutalmente. A falecida esposa morrera algumas semanas depois. Nada foi investigado pela polícia.

Luciana era filha daquele cara e ele era um zé-ninguém que não teria chances. Só conseguiria a pequena se arrumasse uma maneira rápida de conseguir dinheiro fácil. Na sua profissão isso nem era tão difícil. Ele só precisava ter peito para arriscar a própria vida ameaçando algum político. E ele tinha bastante “material” para o “serviço”.

Escolheu um político bem rico e bem podre, daqueles que nem é preciso investigar muito para descobrir atrocidades que incluíam pedofilia, tortura de inimigos políticos, o assassinato de um padre “comunista”, apropriação indevida de espaço público, corrupção ativa e passiva, e mais muitos outros crimes que ocupariam algumas horas para contar. Era conhecido como Sr. Alvin, mas até esse nome poderia ser um crime. Ele escolheu Alvin não por que era um criminoso mais que conhecido, e sim por que ele não temia a justiça e não fazia a menor questão de esconder suas atividades criminosas.

Montou uma armadilha para Alvin. Queria uma foto bem comprometedora. Queria um escândalo de verdade. Nenhum crime cometido pelo homem tinha sido sequer investigado. Decidiu que não adiantaria pegá-lo pela ética ou moral, teria de ser pelo ego mesmo. Teria de ser algo que mobilizasse a todos contra ele. Teria de ser um flagra que comprovasse que o homem era um inimigo público perigoso. Divulgou, então, que naquela tarde haveria uma homenagem ao Sr. Alvin, no parque municipal, ao anoitecer. E a notícia se espalhou depressa.

O Sr. Alvin não se mostrou surpreso com a homenagem. Sorria satisfeito, com um ar de quem sempre foi - e deveria continuar sendo sempre - homenageado. Arrumou-se com esmero para a celebração. Cumprimetou o Sr. Rashid e as outras pessoas “importantes” no evento. Passou direto pelo idealizador da “homenagem”. Brindou aos importantes erguendo sua taça de cristal e rindo satisfeito. Comeu os canapés sem perceber que tinham laxantes poderosos. Disfarçou muito bem quando suou frio de dor de barriga. Se esquivou para uma moita de maneira sorrateira, calculando que chegar ao banheiro seria um desastre. Abaixou as calças quase sem tirar os suspensórios e sem olhar para o lugar em que realizava sua grande “obra”.

Não percebeu os dois clarões do flash da máquina fotográfica por que tinha fechado os olhos, tamanho o prazer do alívio que sentia. Quando acabou, limpou-se com um guardanapo de seda que furtara da comemoração exatamente para essa finalidade. Ao subir as calças, deu-se conta que tinha cagado em cima de um pano. Ao olhar melhor, percebeu que era a bandeira do Brasil. Não fez caso e voltou para a festa. Não demorou para uma velha histérica achar a bandeira. Nao demorou para todos excomungarem o cagão e até a quinta geração de sua família. Não demorou para o homenageado arrumar um bode expiatório pobre e acusá-lo na frente de todos. O plano não poderia estar mais perfeito. A foto do lábaro cagado pelo Sr. Alvin seria o passaporte para o coração de Juliana.

Continua…(talvez)

No Comments »