Posted under É com a Lia
Que merda de mundo. Tem vezes que a desigualdade bate a sua porta, numa noite de chuva, com uma criança nos braços, uma criança que poderia ser sua, é pouco mais nova que a sua… Você convida-a para entrar, divide algumas coisas com a desigualdade. Ouve sua história, ou a história que a desigualdade quer contar. Imigrante, veio de ambulância trazer a criança até o hospital, nenhuma das duas comeu desde o dia anterior, não tem família aqui, não tem emprego, a criança está doente. Você vê a criança, que não conta nenhuma história ainda, mas tem o peito chiando, os dedos de unhas compridas e sujas na boca para distrair a fome, os olhos assustados, as roupas molhadas e sujas. Você ajeita a desigualdade com coisas que não lhe são caras, mas sabe que não vai resolver o problema. Depois, se despede dela. E chora. Chora por ser tão privilegiada, mas ser impotente perante a desigualdade. Chora de raiva por não poder simplesmente consertar aquela vida, chora com o coração muito apertado, por que ainda não conseguiu deixar de fazer parte dessa corja bestial que se diz sociedade humana… Que merda esse mundo.