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Eu poderia escrever sobre isso em forma de conto e extravazar a minha raiva aterrorizando os personagens que por ventura representassem as pessoas em questão. Em São Paulo é cada vez mais difícil ter qualidade de vida. Sim, temos boas escolas e universidades, temos um cardápio cultural rico e interessante, temos empresas, tecnologia, mão de obra… Só não temos sossego. Viver em São Paulo é ser bombardeado pelo estresse todo dia. Nem os animais escapam.
Moro numa rua muito trânquila, uma viela com cara de vila do começo do século passado. Quem passa por aqui, principalmente nos fins de semana, deve achar que é uma maravilha ainda existirem casas assim na região. Mas é um lugar isolado. Há em cada esquina uma avenida bem movimentada durante os dias úteis. Minha rua torna-se ponte de uma avenida para outra e é um sem fim de motoboys que passam acelerando e acordando o Américo toda vez que ele tira uma soneca. Por causa da idade das construções, sempre tem alguma casa em reforma na rua e, fora isso, ainda existem repúblicas de estudantes nas casas em frente, freiras que doam alimentos prontos para moradores de rua que sempre arrumam brigas e fazem escândalos, cachorros que nunca saem das garagens e latem alucinados quando um outro está passeando livremente. É uma loucura.
Por isso que não há opção além de apartamentos e condomínios fechados de casas. Só assim quem tem filhos sente-se um pouco mais seguro para deixar sair e brincar. Só estando bem alto, talvez se tenha um pouco mais de silêncio. Só tendo um síndico com o poder de aplicar multas é que os vizinhos se importam com o quanto estão incomodando os outros. É uma pena. Nesses vinte e cinco anos de vida vi a selva de pedra crescer e tomar todo o espaço livre, toda a liberdade de brincar na rua, toda a amizade entre vizinhos. São Paulo não é um bom lugar para passar a infância. Digo isso por experiência própria…