Namoradinha
Uma menina oriental. Olhos felinos e timidez símia. Longos cabelos negros lisos como a seda. Ninguém a conhecia direito, era quieta demais. Não perguntava nada, parecia que já sabia tudo. Estudava por que assim tinha de ser. Seu pai a levava todos os dias até a porta da escola. Não havia um beijo de despedida. Apenas o olhar firme e severo acompanhando a garota até que passasse para dentro dos portões. Nunca comprava comida na cantina, mas sempre tinha um belo sanduíche na lancheira. Não tinha amigas, não lia livros para se distrair. Parecia que sempre olhava para o nada. Estranha e fascinante. Era a minha namorada… Mas, claro, ela não sabia disso.
Quando a fila se formava para subirmos para a classe, eu ficava ao seu lado por que era quase da sua altura. Era uma fila pra meninos e uma pra meninas. Ela ficava ao meu lado. Eu sentia uma vontade enorme de pegar em sua mão, mas tinha vergonha dos meus amigos. Eles não gostavam de meninas. Preferiam a nudez das mulheres adultas nas revistas que roubavam dos irmãos mais velhos ou dos pais. Sempre que o assunto era mulher, as tais mulheres eram artistas de cinema ou novela. Nunca era real, nunca era próximo. E eu sentia muita vontade de segurar a mão dela… Pensei em escrever uma carta e pesquisei por quase um mês os poemas românticos mais esquisitos que encontrei nos livros da minha mãe. Castro Alves, Vinicius de Moraes, Chico Buarque… Eu não entendia nada de amor e aquelas palavras não diziam o que eu sentia de verdade.
Escrevi com minhas próprias palavras que ela era linda e que eu sentia muita vontade de segurar sua mão enquanto estava ao seu lado na fila todos os dias. Escrevi que gostaria de namorá-la e que pediria ao seu pai, se ela quisesse. Escrevi que sonhava com ela quando dormia e que minha felicidade era acordar pra chegar na escola e estar perto dela. Não sabia como entregar a tal carta. Levei dias com ela na mochila, esperando o momento certo. Qual seria o momento certo? Várias vezes eu quase entreguei. Cheguei a suar frio duas vezes em que o envelope estava na minha mão e ela estava ao meu lado na fila. Pensei em colocar em sua mão, mas ela poderia se assustar e jogar o papel no chão. Pensei em colocar na sua mochila, mas ela poderia não ver. Decidi colocar em sua carteira durante a hora do recreio. Coloquei embaixo de seu estojo de canetas e não teria como ela não enxergar. Foi o dia mais aflito da minha infância.
No final do recreio, eu subi as escadas com as pernas moles. Ela estava ao meu lado na fila e, como se advinhasse o que aconteceria, me olhou. Ela raramente olhava pra alguém diretamente. Quando nosso olhar se encontrou, ela baixou os olhos e virou pro outro lado, envergonhada. Se só de me olhar ela ficava assim, imagine quando ela lesse a carta! Que vergonha… Eu suava frio e meu estômago parecia enjoado. Eu sentava duas carteiras atrás dela e passei por sua carteira quando fui pro meu lugar. Vi a carta e senti vontade de sumir com ela, mas era tarde demais. Ela sentou na cadeira e viu a carta. Ela abriu e leu. Eu vi suas bochechas ficarem vermelhas e depois as orelhas. Ela se encolheu na carteira e olhava em volta devagar, estava muito vermelha, devia estar com muita vergonha… Eu a observava e percebi que ela, mesmo muito vermelha e se escondendo, estava com um leve sorriso no rostinho delicado. Parecia feliz por saber que eu a adorava e que sentia vontade de segurar sua mão. Será que ela viria falar comigo? Provavelmente, não. Ela era muito tímida…
Foi então que eu lembrei de uma estupidez muito grande. Eu tinha esquecido de assinar a carta, ou seja, tinha que fazer tudo de novo… Mas, depois de ver o que causei naquela japinha, fiquei com medo. Ela tinha mudado depois que recebeu a carta. Seu olhar, que era vazio, parecia que agora buscava um outro olhar. Ela sorria para todos os meninos que ficavam perto dela durante a formação da fila. Deixou de ter vergonha e eu, morria de ciúmes… Não era mais a menina por quem eu tinha me apaixonado. E, por despeito e medo, nunca a deixei saber que eu era o autor da carta.
Dezembro 14th, 2006 at 2:03 am
ho ho ho!

Dei valor!
Dezembro 14th, 2006 at 1:39 pm
Gostei da história singela e tão real (ao menos na minha época, um pouco mais ingênua do que hoje..). Isso já aconteceu comigo na infância e pré - adoloscência, só que eu assinei e a menina ficou com vergonha e deixou de ser minha amiga…
Beijocas e continue escrevendo, DQ
Dezembro 22nd, 2006 at 5:31 pm
Que escrotidão…
Dezembro 27th, 2006 at 11:13 am
Is god!
Dezembro 28th, 2006 at 11:43 pm
que pecado! esqueceu de botar o nome… uma pena
Janeiro 16th, 2007 at 1:09 am
Que bonitinho! Tudo mundo passa por isso mesmo. =]
Ops, é a primeira, digo, segunda vez que posto no seu blog. Não sei se digo boa noite ou apenas comento… mas enfim.
(Bons contos?)
Janeiro 20th, 2007 at 4:43 pm
Lia! por onde anda? saudade.
me escreve um email!
nveloso25@hotmail.com
Luiz Veloso
Janeiro 21st, 2007 at 12:28 am
Hum? baita soco no nariz o último parágrafo!
Uma beleza! Adorei!
Fevereiro 7th, 2007 at 6:39 pm
Olha, Lia… Excelente!<br /><br />Eu pensei em te cobrar pra colocar outro conto por aqui… Mas este é de dezembro do ano passado, e eu não tinha lido até então…<br /><br />De qqr forma, ficou mto bom mesmo! =)<br /><br />=*
Fevereiro 16th, 2007 at 6:20 pm
Voltei alguns anos atrás! Sentí novamente tudo isso que você escreveu!
Era tão inocente e bom!
Março 6th, 2007 at 5:00 pm
Boa história
Pobreza de linguagem
nota 8
;]
Março 27th, 2007 at 11:34 pm
Puxa vida Lia, gostei demais de seu texto, sobretudo porque há uma identificação imediata que, de tão universal em sua tradução lírica, não poderia dizer sê-la apenas minha, mas de boa parte dos “meninos”. Realmente tocante.<br/><br/>obs: por ontologia nunca se sabe (ou, ao menos, não deveria se saber) quem é o “anônimo”. Contudo, para quem se propõe a dar notas, faz-se imperativa a identidade - sob pena de, na falta dela, supor-se certa leviandade crítica…
Abril 23rd, 2007 at 1:52 am
Bem bacana. Talvez pudesse ter umas cenas de sexo ou um tiroteio…talvez uma perseguição com carros velozes…brincadeira!! Continue assim…sensível e delicada.<br/>(talvez só um tiro ou dois)