Archive for Outubro 9th, 2006

Outubro
9th 2006
Martírio

Posted under Contos

Martírio

Não usava nada além de um pedaço de pano para cobrir o sexo, estava machucado, torturado, quase inconsciente. Carregava um enorme peso, sem muita noção do que era, apenas imaginava que logo tudo acabaria. Sentia-se tonto de fraqueza, o calor era escaldante e muitas pessoas faziam barulho ao seu redor. Choro, grito e desespero. Muita gente estava ali. Ele não conseguia se lembrar o que tinha feito. Tudo doía em seu corpo. O cume do monte estava próximo, logo tudo acabaria. E então ele percebeu quem era.

Não, ele não era mais o mesmo. Onde estava seu quarto? Ele pensou que estava sonhando, mas a dor que sentia era bem real. Ele se olhava sem acreditar. Aquelas não eram suas mãos, aqueles pés descalços eram de outra pessoa mas andavam como se fossem dele. Ele queria um espelho, mas naquela situação seria impossível conseguir algum. Tentou falar com uma mulher que chorava enquanto o seguia, mas o som que saiu de sua boca era incompreensível, nunca ouvira aquele idioma. E a mulher parecia entender, falava e gesticulava como se o conhecesse.

Quando chegou ao alto do monte sentiu que conhecia aquela história, mas não era possível. Aquilo era um sonho. Ele não seria crucificado de verdade. Ele não era filho do Pai. Mas… dizem que todos somos. Será que ele era Jesus? Será que aquela era uma lembrança de sua vida passada? O que estava acontecendo? Enquanto ele, atordoado, tentava pensar no que estava acontecendo, soldados romanos erguiam a cruz que ele tinha carregado até ali. Puxavam seus braços para cima e, quando enfiaram estacas em suas mãos, desmaiou de dor.

Quando seus olhos abriram, achou que o pesadelo tinha chegado ao final. Mas tinha acordado apenas do desmaio. Estava pregado numa cruz. Pessoas choravam aos seus pés ensanguentados, um maluco recolhia num cálice o sangue que pingava, outros faziam discursos num idioma totalmente estranho e ele estava ali, pregado na cruz. Não conseguia entender por que esse pesadelo não acabava, por que ele não acordava e passava a noite inteira jogando video game. Jurou que, quando acordasse, nunca mais dormiria novamente. Sentia muita dor para aquilo tudo ser um sonho. Sentia a respiração cada vez mais difícil. Sentia que estava morrendo. Sentia cada agonia de alguém que está quase morrendo. Sentiu quando o corpo não sentia mais dor. Sentiu quando o seu coração bateu cada vez mais devagar. Sentiu o fim. Morreu.

Só acordou no mundo que conhecia depois que morreu. Nunca conversou com ninguém sobre o sonho que teve. Mas, de alguma maneira, sabia quais pessoas tiveram o mesmo sonho que ele sonhara aquela noite. Algo em suas expressões mudava para sempre. E ele sabia que sempre, toda noite, alguém estava sonhando o sonho do maior mártir que a história conheceu. Talvez era por puro sadismo de seu Pai, que dizem ser o Pai de todos.

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Outubro
9th 2006
Amor Felino

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Tinha o Capitão e o Faísca. Um dia o Capitão foi brutalmente assassinado por um humano estúpido e o Faísca, ainda filhotão, ficou sozinho e sentia muito sua falta. Certo dia eu fui até a avicultura comprar ração e vi uma bola branca de pêlos, branca como o Capitão. Não pensei duas vezes, nem quis saber o sexo, levei pra casa…

Quando cheguei em casa, descobri que era uma menina. Era todinha branca, olhos azuis e o rabo em formato de raio. Dei o nome de Chu, na época eu era muito fã de Pokemon e, principalmente, do Pikachu. Ela era muito arisca e pulava como uma coelhinha pela casa enquanto fugia do Faísca. Ele, todo curioso e brincalhão, queria se aproximar e fazer amizade, talvez por que ela se parecesse demais com o Capitão, talvez por ser fêmea.

O começo dos dois foi difícil. Ela era difïcil. Brava e altiva. Depois de alguns meses estavam num love só. E viveram esse amor por alguns anos, até que o Faísca morreu envenenado por algum vizinho maldito. Chu nunca mais deixou nenhum outro gato se aproximar e era uma leoa. Cuidava de sua cria que, apesar de ser toda branca como a mãe, eu achava que o pai era o falecido. E quando a Chu morreu, o filhote que eu fiquei, a Derri, era branca como a mãe, tinha um olho azul e o outro era cor de laranja, como os do Faísca. Era a mistura perfeita do amor felino.

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