Phoenix Criminal Lawyer


Archive for October, 2006

Medo de escuro - Parte 2

October 30th, 2006

Medo de escuro - Parte 2

Escorregava da cadeira. Um vento cada vez mais frio fazia seu corpo ficar arrepiado. O coração já não estava tão acelerado, mas o medo persistia. Tentava forçar os ouvidos para reconhecer o lugar onde estava. Sabia que tinha terra, mas não ouvia pássaros ou insetos. O cheiro era de chuva, terra molhada. Sem barulho de motores, sem buzinas. Sem vozes, passos, ruídos. Apenas o vento soprava e fazia um barulho abafado dentro de seu capuz.. Conforme anoitecia, o tempo esfriava. E nada mais acontecia…

O telefone de um de seus sequestradores toca. Seu coração dá um pulo e volta a bater como se ele tivesse corrido por kilômetros. Tenta ouvir o que falam, mas está tão ansioso que seu batimento cardíaco soa como a bateria da Beija-Flor dentro da sua cabeça. Fica mais desesperado ainda. Quando aquilo acabaria? Que estava acontecendo? Chegou a desejar que, se fosse pra morrer, que acabassem logo aquela agonia.

- Está quase.. Ainda não. Mas vai dar certo. Pode confiar, já fizemos muitas vezes antes… - Pausa - Se não der certo, garantimos devolver o pagamento, e isso nunca precisou acontecer.

Aqueles homens estavam ganhando dinheiro para mantê-lo ali. Já sabia que era um caso de violência. Seria morto. Por que ainda estava vivo? Como seria sua morte? Tiro? Espancamento? Facas? Estrangulamento? Como seria encontrado? Sua mulher?Seus filhos crescidos e indiferentes? Será que chorariam sua falta? Não conheceu os netos que o futuro lhe daria. Morreria sem saber se sua linhagem teria continuidade.

Quando começaria sua morte? Por que não lhe davam um tiro e terminavam o serviço? Ouviu os homens se movimentando e sentiu um forte cheiro de gasolina por perto. Seria queimado! Deus!!! Queimado vivo? Isso seria extremamente doloroso. Por que tanto requinte de crueldade? Será que o matariam primeiro e queimariam depois? Cheiro forte de gasolina… Esperava que jogassem gasolina em seu corpo. Seu coração estava tão acelerado que seu peito começou a doer. Sentiu algo molhado e quente no meio de suas pernas. Não era gasolina, era seu pânico em forma de mais um vexame. Se bem que… Estava prestes à morrer… De que valeria sua dignidade? De que valeria qualquer coisa nesse momento?

Seu peito dóia. Seu braço adormecia. Seu coração parecia que estava explodindo. Sentiu a boca seca… Cada vez mais seca. Seu ombro doía muito, seus ouvidos não ouviam mais nada além do seu coração. E ele batia cada vez mais forte nos seus tímpanos. Sentiu uma tontura e caiu. Nunca mais se levantou…

- Quanto tempo já passou?
- Acho que uns vinte minutos…
- Vamos trocar as calças dele de novo?
- Não, não temos mais uma igual à que ele estava, pode levantar suspeitas…
- É, vão pensar que ele se mijou durante o enfarte. Vambora. Tira o capuz e leva a cadeira.

Sem Limite

October 30th, 2006

Uso sarcasmo para me proteger
Sou cínica quando a situação me parece absurda
É irreal idealizar a perfeição
A maior dádiva e conquista que se pode almejar é a felicidade
Não, eu não quero nada além disso
Seja feliz e me deixe ser feliz em paz
Não guardo rancor ou mágoa
Não desejo desgraça para quem quer que seja
Não estou limitada à uma vida que não me diz respeito
Apenas preservo minha dignidade
Prefiro nem saber
Quando não confio, não expresso minha opinião
Não me divirto com o caos
Aprecio a paz e a liberdade acima de tudo
A minha e a sua paz
A minha e a sua liberdade
Onde termina o meu espaço, começa o seu
E vice-versa, não é?
Reciprocidade é premissa obrigatória para respeito
Onde quer que eu esteja
Não importa o que eu faça
Eu acredito que quem respeita
Não está limitado ao julgamento alheio

Intuição

October 24th, 2006

Sentindo agonia no coração
Tudo está mudando tanto
E não há mais tempo pra nada
Quem sou agora parece distante
E uma tristeza…
E uma felicidade…
Tanta inconstância e medo
Queria que tudo acabasse
Queria recomeçar
Queria sumir, fugir, me proteger
Não sei nada de amanhã
Não sei o que estou plantando
Há pouca confiança aqui dentro
Há muita esperança
Há uma intuição de perigo
Vontade de chorar até adormecer
Talvez seja só hoje…

Medo de escuro - Parte 1

October 19th, 2006

Medo de escuro - Parte 1

Foi agarrado pelo pescoço enquanto corria fugindo da chuva. Enfiaram um capuz em sua cabeça e o arrastaram para outro lugar. Ficou apavorado, toda a racionalidade lhe fugiu da consciência quando não pôde enxergar para onde estava sendo levado. Poderia ser um sequestro, já que está na moda da bandidagem. Poderiam tê-lo confundido com outra pessoa jurada de morte. Poderia ser a mafia, o marido de sua amante, um bandido contratado pela sua esposa que descobriu toda a traição e preferia a viuvez a dividir os bens, poderia ser uma abdução alienígena.

Apesar da chuva, seu corpo queimava num calor cheio de calafrios. Era tensão, medo. A respiração era difícil dentro do capuz, parecia sufocar, mas não sufocava por que o ar entrava por baixo. Nem pensava em tirar o capuz. Seguravm seus braços, não estava algemado ou amarrado, mas não se atreveria a tirar o capuz. Queria que fosse um pesadelo, que despertasse com um travesseiro em cima da cara e tudo não passasse de um sonho ruim. Deveria falar ou esperar que lhe perguntassem alguma coisa? Para onde o estavam levando?

Escorregou, mas não caiu. Os homens que o levavam pelos braços evitaram a queda. Por baixo do capuz, conseguia vez um pouco do ambiente por onde passavam. Parecia que estava andando sobre terra molhada. Seria o morro? Talvez um pântano ou um local onde exterminam e *desovam* pessoas. Sentiu vontade de mijar. Era incontrolável e ele acabou fazendo nas calças. Era o medo. Não teve nem coragem para pedir que o levassem para um banheiro. Sentia-se apavorado e humilhado. Não mijava nas próprias calças desde que tinha onze anos e andou numa montanha-russa pela primeira vez. Começou a chorar, mas baixinho. Tinha medo de irritar seus raptores. Não diziam nada. Ele não dizia nada? Naquele lugar de terra úmida, tinham o feito sentar no que parecia ser uma cadeira. Era dia ainda.

- Vamos esperar?
- É, temos que esperar ligarem.

Foi tudo o que escutou os dois conversarem durante todo o tempo. De quem seria a ligação que estavam esperando? Até que horas ele ficaria encapuzado, mijado e sentado ali? Sentiu que tentavam lhe tirar as calças. Era só o que faltava: um estupro. Tentou resistir, mas não tinha coragem. Eram dois contra um. A violência poderia ser bem maior se ele resistisse. Ficou sem calças e esperava que lhe arrancassem a cueca e lhe fodessem como aqueles pederastas dos filmes sobre presidiários.

- Fica calmo, florzinha. A gente não quer que todo mundo fique sabendo que você se mijou todo de medo.

Vestiram-lhe uma calça seca. Quem seria todo mundo?

Dinheiro na mão

October 16th, 2006

Dinheiro na mão

Queria se transformar em qualquer coisa bonita, queria ser admirada pelos adjetivos que nunca usaram com ela. Queria ser desejada, invejada, imitada. Queria ser a rainha da Primavera, da bateria, do bairro, de qualquer coisa que significasse : Ela é bonita! Sentia-se feia e assim era. Seu rosto era todo esburacado, cheio de perebas roxas de acne cutucada e cicatrizada, seu nariz era largo e caído, sua boca quase não tinha lábios, usava óculos fundo de garrafa, seu cabelo liso sempre parecia ensebado, seu corpo era redondo e não se podia distinguir onde terminavam os seios e começavam as pernas. E pra piorar tudo, ela tinha mau hálito e um problema fonológico que a fazia pronunciar as palavras como o Frajola. Cuspia enquanto falava.

Trabalhava na expedição de uma grande loja de enfeites, não tinha que lidar com o público e tinha poucos colegas por perto. Seu trabalho podia ser resumido em identificar os produtos, escrever o endereço dos compradores nas etiquetas de endereço e despachar as mercadorias no fim do dia. Não costumava sorrir e era muito tímida. Não tinha amigos e se isolava da família. Tinha uma irmã mais velha que era linda e adorava humilhá-la. Seus pais eram evangélicos fervorosos e a obrigavam a acompanhá-los ao culto toda semana. Ela ouvia às palavras do pastor e sua fértil imaginação transformava o texto em sacanagens, como se ele estivesse lendo um poema erótico. Ela adorava uma putaria, mas escondia isso como se fosse um segredo mortal. Morria de medo de morrer virgem.

Já experimentara apelidos como rolha de poço, tranca-rua de festa junina, chupeta de mamute. Já tinha ouvido que ela tão feia que parecia que lhe tinham colocado fogo na cara e apagado com um tamanco. Já tinha sido rejeitada até pelo mais feio de todos os garotos que conhecia. Pensava em juntar dinheiro e contratar um puto para tirar-lhe a virgindade, mas era muito caro bancar o puto e o motel onde teriam de ir. E, além do mais, seria o cúmulo da rejeição ter de pagar para um homem lhe querer apenas para sexo. Mas, se fosse a última opção…

Naquela manhã, caiu da cama antes do relógio despertar no horário de sempre. Exatamente sete minutos antes. Bateu o lado do rosto e foi para o trabalho com o olho começando a ficar roxo. Pegou o ônibus mais lotado que o habitual e chegou atrasada. Seu chefe reclamou, apesar de terem sido apenas dez minutos. Quando chegou ao seu departamento, encontrou uma caixinha de veludo vermelho com uma etiqueta. Na etiqueta estava escrito seu nome, era um presente. Imaginou que era mais alguma gozação de algum colega. Pensou em não abrir, mas abriu. Dentro tinha um globo de neve, desses que vendiam aos montes na loja. Só que este tinha uma linda fada lilás sentada num poço. E havia uma placa sobre o poço que dizia: Poço dos Desejos. Ela sorriu, não era uma brincadeira com seus complexos, era apenas um belo agrado. Colocou em sua bolsa e levou pra casa.

Antes de dormir, procurou uma escova de cabelo que estava em sua bolsa e notou o globo de neve. Pegou e ficou admirando a graciosidade do objeto. Imaginou que se pudesse, atiraria uma moeda ao poço e faria um desejo. Quem sabe o que poderia acontecer? E, logo depois desse pensamento, viu cair uma flor do cabelo da fada dentro do poço. Pensou: ?Esse negócio não presta! Nem mexi e já está quebrando…?

No dia seguinte, achou um bilhete de loteria na rua e, por curiosidade, conferiu o resultado. Não acreditou quando viu que estava com o bilhete premiado. Sentiu-se tonta e pediu ajuda para uma atendente da casa lotérica. Sim, ela tinha acabado de ganhar quase vinte milhões de reais. Sim, ela estava milionária. Sim, agora ela era poderosa. Mal podia esperar para ter o dinheiro em mãos, contar para a família, se demitir do emprego e mandar o patrão pro inferno. Poderia fazer qualquer coisa. Poderia ficar bonita como sempre desejou, fazer plástica no nariz, lipo na pança e escova no cabelo. Poderia ser feliz, finalmente.

Alguns meses depois de ter faturado uma fortuna e continuava a mesma pessoa de sempre, só que com roupas mais caras. Não fez plástica ou escova no cabelo. Foi ao salão de beleza apenas uma vez, para ver como era… Mas, algo realmente assustador aconteceu depois de ter ficado podre de rica: agora todos a queriam e desejavam. Ninguém mais fazia piadas sobre sua obesidade ou seu nariz de coxinha. Seu dinheiro tinha transformado sua vida. Morava sozinha, tinha homens que a queriam, sua irmã exibida e metida a idolatrava e sua família concordava com tudo o que dissesse. O dinheiro não lhe trouxe a beleza, pois sabia que continuava a mesma toda vez que se olhava no espelho. O dinheiro lhe trouxe a hipocrisia que as pessoas têm para oferecer. Era assustador.

Mas, por pior que fosse, nunca mais seria: Jesus me ama - *mas ninguém me come…*

Pequenos Garfields

October 16th, 2006

Deixa eu contar que mais uma vez sou vovó. Sim, minha filha felina Raiona deu cria e agora tenho cinco futuros Garfields em casa, são todos machos e acabaram de abrir os olhinhos. Nunca vi uma gata mais meiga e confiante que a Rai. Ela deixa as pessoas se aproximarem e pegarem seus filhotes. Não estranha nada, não se sente ameaçada. E ela está tão linda… Uma mãe exemplar!
Me faz lembrar de todos os outros gatinhos que vi nascer, de quando a Raiona veio pra casa, toda desnutrida, feiosa e peidorreira. Hoje está tão linda que três dos cinco filhotes já estão prometidos, e o pessoal não acredita que ela é vira-latas. É o que eu sempre digo: não existe gato feio, existe gato mal tratado. É da natureza felina ser exuberantemente lindo e chamoso. Olha só:

Martírio

October 9th, 2006

Martírio

Não usava nada além de um pedaço de pano para cobrir o sexo, estava machucado, torturado, quase inconsciente. Carregava um enorme peso, sem muita noção do que era, apenas imaginava que logo tudo acabaria. Sentia-se tonto de fraqueza, o calor era escaldante e muitas pessoas faziam barulho ao seu redor. Choro, grito e desespero. Muita gente estava ali. Ele não conseguia se lembrar o que tinha feito. Tudo doía em seu corpo. O cume do monte estava próximo, logo tudo acabaria. E então ele percebeu quem era.

Não, ele não era mais o mesmo. Onde estava seu quarto? Ele pensou que estava sonhando, mas a dor que sentia era bem real. Ele se olhava sem acreditar. Aquelas não eram suas mãos, aqueles pés descalços eram de outra pessoa mas andavam como se fossem dele. Ele queria um espelho, mas naquela situação seria impossível conseguir algum. Tentou falar com uma mulher que chorava enquanto o seguia, mas o som que saiu de sua boca era incompreensível, nunca ouvira aquele idioma. E a mulher parecia entender, falava e gesticulava como se o conhecesse.

Quando chegou ao alto do monte sentiu que conhecia aquela história, mas não era possível. Aquilo era um sonho. Ele não seria crucificado de verdade. Ele não era filho do Pai. Mas… dizem que todos somos. Será que ele era Jesus? Será que aquela era uma lembrança de sua vida passada? O que estava acontecendo? Enquanto ele, atordoado, tentava pensar no que estava acontecendo, soldados romanos erguiam a cruz que ele tinha carregado até ali. Puxavam seus braços para cima e, quando enfiaram estacas em suas mãos, desmaiou de dor.

Quando seus olhos abriram, achou que o pesadelo tinha chegado ao final. Mas tinha acordado apenas do desmaio. Estava pregado numa cruz. Pessoas choravam aos seus pés ensanguentados, um maluco recolhia num cálice o sangue que pingava, outros faziam discursos num idioma totalmente estranho e ele estava ali, pregado na cruz. Não conseguia entender por que esse pesadelo não acabava, por que ele não acordava e passava a noite inteira jogando video game. Jurou que, quando acordasse, nunca mais dormiria novamente. Sentia muita dor para aquilo tudo ser um sonho. Sentia a respiração cada vez mais difícil. Sentia que estava morrendo. Sentia cada agonia de alguém que está quase morrendo. Sentiu quando o corpo não sentia mais dor. Sentiu quando o seu coração bateu cada vez mais devagar. Sentiu o fim. Morreu.

Só acordou no mundo que conhecia depois que morreu. Nunca conversou com ninguém sobre o sonho que teve. Mas, de alguma maneira, sabia quais pessoas tiveram o mesmo sonho que ele sonhara aquela noite. Algo em suas expressões mudava para sempre. E ele sabia que sempre, toda noite, alguém estava sonhando o sonho do maior mártir que a história conheceu. Talvez era por puro sadismo de seu Pai, que dizem ser o Pai de todos.

Amor Felino

October 9th, 2006

Tinha o Capitão e o Faísca. Um dia o Capitão foi brutalmente assassinado por um humano estúpido e o Faísca, ainda filhotão, ficou sozinho e sentia muito sua falta. Certo dia eu fui até a avicultura comprar ração e vi uma bola branca de pêlos, branca como o Capitão. Não pensei duas vezes, nem quis saber o sexo, levei pra casa…

Quando cheguei em casa, descobri que era uma menina. Era todinha branca, olhos azuis e o rabo em formato de raio. Dei o nome de Chu, na época eu era muito fã de Pokemon e, principalmente, do Pikachu. Ela era muito arisca e pulava como uma coelhinha pela casa enquanto fugia do Faísca. Ele, todo curioso e brincalhão, queria se aproximar e fazer amizade, talvez por que ela se parecesse demais com o Capitão, talvez por ser fêmea.

O começo dos dois foi difícil. Ela era difïcil. Brava e altiva. Depois de alguns meses estavam num love só. E viveram esse amor por alguns anos, até que o Faísca morreu envenenado por algum vizinho maldito. Chu nunca mais deixou nenhum outro gato se aproximar e era uma leoa. Cuidava de sua cria que, apesar de ser toda branca como a mãe, eu achava que o pai era o falecido. E quando a Chu morreu, o filhote que eu fiquei, a Derri, era branca como a mãe, tinha um olho azul e o outro era cor de laranja, como os do Faísca. Era a mistura perfeita do amor felino.

Dias

October 5th, 2006

Já me ensinas paciência
Te esperar por esse tempo
Que dizem ser pouco, mas é muito
Anseio por ti, por seu choro e cheiro.
Um dia de cada vez e
Tem dias que parecem dois
Tem dias que parecem meio
Tanto futuro, tanta vida
Estamos num mundo cruel
Estamos num beco sem saída
Mas só a idéia de você já me melhora
Quem diria que minha revolta, um dia,
Seria transformada em utopia
E eu sonharia um mundo mais bonito
Por que você está dentro de mim
E eu preciso melhorar tudo
Para você sempre sorrir aqui fora
Quando se tem razão
Aliados são dispensáveis
Quando se tem certeza
Não é preciso convencer ninguém
Tem dias que parecem ontem
Todos os dias em que não sei o amanhã
E só está começando…