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Agosto
30th 2006
Vidas inúteis são iguais

Posted under Contos

Vidas inúteis são iguais

Quando escrevia tinha certeza que todas as suas palavras não eram inéditas, por que nada é inédito. Escrever sobre a vida ou morte? Era só escolher. Mesmo sendo única, cada vida era igual. Nasce, cresce e morre. O que está no meio disso pode ser completado de acordo com a imaginação de cada um. Esse preencher é que faz cada vida ser diferente, cada conto ser uma nova estória. E ela preenchia a vida com letras. Mundos que só existiam na sua imaginação, fatos que só aconteceram nas linhas que conheceu.

Livros eram seus brinquedos favoritos. Sentia muita vergonha dos elogios que as tias lhe faziam enquanto apertavam suas bochechas.

- Ai, que menina linda! Esse redemoinho na sua franja faz seu cabelo ficar tão bonito! EU passo meia hora fazendo escova para conseguir isso!

Ela se escondia no quarto quando as visitas chegavam. Era chamada de caipira pelas primas mais velhas e mais sociáveis. Ela escrevia poemas sobre a chuva, sobre flores e sobre seu gato. Uma vez ela plantou um pé de feijão no algodão, essas *experiências científicas* que a escola pede para fazer em casa como tarefa. O pé de feijão cresceu e ela o transferiu para um pote com terra. E, regando e cuidando todos os dias, acompanhou o crescimento de três viçosas vagens. Ela lia para os brotos, elogiava o crescimento. Conversava com a vida que ela acreditava ter criado.

Quando colheu e deu o resultado de seu trabalho para a mãe, ouviu:

- Que eu vou fazer com três vagens? Não está vendo que eu estou ocupada?

Depois desse dia, além dos livros, ela ficou vidrada em plantas. A razão daquela *experiência científica* não era ver uma semente germinar, mas saber se a vida que criara era útil. Assim como as pessoas vivem sem motivos, a sua vagem morreu sem utilidade. Esse contato com a morte foi o primeiro de uma sequência. E foi então que ela começou a escrever o livro entitulado: Vidas inúteis são iguais.

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