Phoenix Criminal Lawyer


Archive for April, 2006

Se eu tivesse um país

April 25th, 2006

Se eu tivesse um país
Sua bandeira seria branca, toda branca
As cores das bandeiras
O orgulho nacional, ferido sempre
Sem cores que representem
Sem nada pra representar a não ser a união
Sem diferenças, sem outras divisões.
Um país sem nenhum estado.
Onde a cultura sairia de dentro das casas
De dentro das bocas e das mãos
De cada decoração, de coração.
Um idioma com sotaques
Com muitos, invente um pra você
Pode falar até na língua do i
Mas comunique-se, reivindique.
No meu país, não haveria Presidente
Apenas conselhos de mães
Não haveria trabalho, mas tarefas
Não haveria fim de semana, mas fim de tarde
Não haveria tempo e haveria espaço.
Onde não houvesse nada mais importante
Que a vontade individual de ser feliz
Onde a lei seria: plante só o que gostaria de colher.
Onde o hino seria apenas instrumental
De cítaras indianas e guitarras havaianas
Onde as palavras não superassem o sentir
e empirismo não fosse marginalizado.
Onde a tecnologia nos proporcionasse evolução
e nos ajudasse a ser mais humanos.
O prato típico do meu país seria banana split.
A dança típica seria a cirandinha.
O monumento nacional seria uma homenagem
A tudo o que é belo entre nós e ainda existe.
A tudo o que nesse país estaria a salvo:
As belezas das vidas realmente felizes.

O Bonito Esculápio

April 24th, 2006

Vou contar uma história que poderia ser sombria se eu desse ouvido aos ignorantes que disseminam pelo mundo as crendices, os preconceitos e as superstições. Era uma sexta-feira 13. E ele entra pela porta da sala com um presente no bolso da jaqueta. Preto, feio de doer. Orelhas enormes, magrelo, cheio de remelas… Eu me apaixonei. Meu primeiro gato preto, ganhado numa sexta-feira 13. Foi pura sorte!

Como sempre A-D-O-R-E-I nomes diferentes, batizei esse bichano de Esculápio. Claro que ele não gostou do nome e não atendia nem por decreto. Cresceu e escolheu o próprio nome: ele só olhava quando chamávamos de BONITO! E ficou, o Bonito Esculápio. Cresceu e ficou lindo, um pretão com estilo de pantera. Era o típico vira-lata, vivia na gandaia noturna, sempre voltava com um teco a menos da ponta da orelha, trazia amigos pro nosso quintal, caçava os passarinhos filhotinhos que caíam das árvores vizinhas, comia insetos nojentos, marcava território… Era um típico gato saudável.

Preferia minha mãe. Talvez porque o carinho dela era mais calmo, talvez por ela não mordê-lo nem apertá-lo como eu fazia. Ele amava a minha mãe. E aí de quem estivesse perto dela quando ela gritava ?Ai!?. O Bonito descia o dente sem dó. E ele era cheio de truques que enchiam nosso cotidiano de risadas. Tinha mania de se esconder num pequeno jardim, que ficava ao lado do corredor de entrada, e quando alguém passava por ali de noite, ele pulava nas pernas do infeliz para dar um susto. E minha tia-avó, idosa, religiosa e fã de passarinhos; era sua vítima favorita. Era sádico, porém irresistível assistir tal cena.

E ele seguiu vivendo uma vida muito boa, apesar dos arranhões. Até que um dia, uma enorme tragédia aconteceu. Digo enorme por que perto dele, ela era muito grande mesmo. Minha tia, que é gorda, pisou, sem querer, na pata dianteira dele. Esmagou. Nessa época eu estava casada e não morava com minha mãe. Apesar de ter tentado levá-lo para meu novo lar, ele preferiu ficar com minha mãe e eu o deixei, então, na casa dela. Mas o machucado o trouxe para meus cuidados novamente. Minha mãe não tinha tempo nem frieza para cuidar da pata do bichano. Eu cuidava. Ouvia-o chorar de dor a cada sessão de banhos para desinchar o ferimento.

Cuidei, levava duas vezes ao dia na veterinária, medicava e tentava fazer com que ele se tornasse amigo dos gatos dessa nova casa: o Capitão e o Morango. Não tinha jeito. O Bonitão era um negão invocado e não queria saber de dividir nada. Ele estava acostumado a ser O Gato da casa. E lá ele não era o dono do território. Sentia-se assustado e irritado. Estava com uma atadura na pata e faltavam apenas dois dias para tirá-la e ele voltar para a casa de minha mãe, sua casa. Desapareceu. Acho que devia estar forte o suficiente, desapareceu. Não voltou pra casa da minha mãe (a distância não era tão grande), não voltou para a minha casa. Apesar de vários cartazes oferecendo recompensa pelo gato, quem nota um gato preto no meio da rua?

Quando penso no Bonito, acredito que ele se transformou em noite. Seus pelos viraram brisas úmidas que carregam cheiro de Damas da Noite, seu olhar se transformou em luz de lua cheia, sua agilidade se transformou na inconstância que o desconhecido noturno planta no nosso coração. Ele ainda tem muitas vidas pra viver…

O mundo e a zona

April 20th, 2006

Eu que começo todas as brigas
Causo problemas e fico triste
Não consigo me conformar
Não agüento tanta diferença em mim
Por que eu pareço que sei e o resto não
Não querem saber?
É mais fácil estar na zona de conforto
Mas eu vivo na zona de confronto
Zona, zona de mundo
Esse mundo está uma zona
Um puteiro sujo e negligenciado
Fodem com a dignidade humana
Fodem com a inteligência geral

E nem pagam por isso…
É mais fácil ser fodido nesse mundo
É mais fácil aceitar, receber
E abaixar a cabeça… Submeter-se…
Quem não se submete se fode também
E se fode sozinho por que é caso raro
Quem realmente quer fazer diferença
Não encontra apoio, só humilhação.
Quem usa da própria inteligência para

Ajudar os outros a serem mais inteligentes
É chamado de presunçoso, arrogante
É ignorado pelos que podem ajudar
Tem suas idéias roubadas e violentadas

Vendidas
Idéias deturpadas, estupradas…
Quem quer saber?
Essa idéia também não é minha…

Meu primeiro amor felino

April 11th, 2006

Eu estava no início da fase mais complicada e mais bonita da vida. Para chamar a atenção da minha mãe que, na minha cabeça, gostava mais do meu irmão, tinha cortado o pulso esquerdo e tomado veneno. Eu não queria morrer, só queria que ela acreditasse que eu queria. Queria fazê-la sofrer. Freud explica que magoamos quem mais amamos quando estamos formando nossa personalidade. Talvez tenha sido isso. Talvez tenha apenas sido uma maneira desesperada de chamar atenção para o meu ciúme, para a minha necessidade de ter alguém que eu amasse por perto.

Fiquei uns dias na casa de uma tia. Lá, meu primo, que tinha sido meu melhor amigo por toda a infância, estava na mesma fase difícil de crescimento. Eu estava muito sozinha. Quando voltei pra casa, uma surpresa que me curou pra sempre: BEL. Um filhote todo cinza, de olhos verdes, com coleira e guia. Miava, miava… Queria brincar, queria que o soltassem. E foi a primeira coisa que fiz. Foi amor à primeira vista. Quando soltei sua coleira da guia e o peguei no colo percebi que nunca mais me sentiria sozinha. Acreditei que tinha ganhado meu melhor amigo.

Ele cresceu muito, ficou uma bola de pêlos. Era o dono da casa. Morávamso só eu, minha mãe e o meu irmão. A mesa de jantar tinha quatro lugares e o Bel sempre ocupava o que estava vazio. Não subia na mesa, nem pedia comida. Apenas acompanhava nossa refeição. Chorava alto quando ouvia o som agudo de algum instrumento de sopro. Geralmente mordia alguém, de leve, quando isso acontecia. Dormia comigo. Melhor dizendo, dormia em cima de mim. Na época eu tinha o peito reto como o de um menino, e o Bel deitava ali, com a cabeça apoiada na minha bochecha e ronronava muito feliz. E eu me sentia feliz por isso.

Certo dia ele sumiu. Mais de um mês sem aparecer, nem notícias… Já tínhamos perdido as esperanças quando ele aparece miando pelo quintal, sem sinal de machucado, sem um grama a menos. Concluí que ele tinha sido raptado, mas conseguiu fugir r voltar para meus braços… Hoje penso que ele deve ter achado dono mais bonzinho, ou uma fêmea que morava longe… Especialista em abrir o vitreaux e fugir pra rua, Bel era um felino caçador adormecido. Não pegava nem barata. Era manso demais pra fazer qualquer esforço que não fosse chegar até a ração. E assim foi por quase três anos, até que um envenenador o levou de mim. E hoje ele está no céu de Bast.

Confissão de preguiça!

April 5th, 2006

A preguiça está me dominando.
Só penso em me divertir.
Só quero o que é bom na vida.
Minha vida é boa por isso.
Busco meu prazer onde ele estiver.
Não me prendo.
Não me solto.
Mas posso notar que agora
queria mudar de lugar.
Queria viver a vida de outra pessoa.
Queria por completo.
Mudar de corpo, personalidade trocada.
Uma aventura enlatada.
Diversão garantida!

Irresponsável

April 3rd, 2006

Olha só que irresponsável
Nem estava tão doente, um resfriado
E falta com os compromissos que não marcou
Para ficar consigo
Para dançar a alegria de estar em si
Uma assinatura e legaliza seu crime
Faz isso porque não gosta de seu trabalho
Não gosta de se submeter àquela repetição
Triste, sim e… necessário.
Quem nunca o fez? Quem nunca fugiu?
Mas sabe que foge além da conta
Pensa: vão me demitir!
E daí? Eu não vou morrer por isso.
E sempre pensava isso:
Eu não vou morrer por isso!
Já teve fases de ansiar pela derradeira…
E, talvez por isso, a respeitasse.
Se não mata, não importa.
Mas importa, sim.
Sua mãe liga e traz o sentimento de culpa
Irresponsável
Ninguém mais tem o direito de ser
Ou só quem realmente conhece a dor
E o prazer da liberdade